A Cidade do Anti-Individualista Solitário

26/10/2012

Apoio Mútuo de Gênero

Vivemos um momento de acirrados debates de gênero nos movimentos anarquistas e feministas. Protestos, questionamentos, revoltas e até trocas de acusações têm feito eco à situação de guerra e mesmo de militarização da vida cotidiana contemporânea. Reclama-se, enfim, da falta de amor disseminada pelas veias abertas do capitalismo.
A imensa dificuldade de diálogo que marca esta luta me faz crer na necessidade de uma auto-crítica ou, melhor, uma crítica dialógica. Um diálogo que supere os entraves do patriarcalismo socrático e que nos possibilite, de fato, saber algo, sim, uns sobre os outros.
Saber que nada sei seria uma profunda declaração de falta de amor à vida e à experiência.

Muitos movimentos radicais têm o costume de falar em ação direta e prática, ainda que não poucas vezes suas práticas se resumam a discursos de negação da opressão vigente.
Creio na importância da fala e da expressão verbal – que, no nosso caso alfabético, mistura-se à expressão escrita (como a que estou fazendo agora) – na transformação do mundo. O problema é quando esta fala, este logos, determina a ação limitando-a, fazendo-a funcionar apenas como discurso. Um efeito disso é a associação da ação direta à contestação e ao protesto, esquecendo-se às vezes do agir transformativo e afirmativo a partir do qual novas falas possam ser inventadas.

Há alguns anos o coletivo do qual faço parte cansou-se de apenas protestar. Naquele momento vivíamos o declínio das grandes passeatas anti-globalitárias, muitos coletivos e movimentos debandavam sob o signo da esquerda no poder (no caso brasileiro) e da “vitória contra a ALCA”. Decidimos começar a botar em prática aquilo em que acreditávamos ao invés de apenas atacar aquilo em que não acreditávamos. Passamos a gerir um espaço coletivamente, onde pudemos fazer experiências de autogestão, ajuda mútua, intercâmbios gratuitos e não mercantis (sem ignorar a necessidade do dinheiro na relação com o que nos cerca e ainda nos domina), agroecologia, horta comunitária, pedagogia libertária, conhecimentos sobre plantas, alimentação, saúde, solidariedade e liberdade em busca de uma autonomia perante o Capital e o Estado. Nesse processo, ampliamos nossa ação através da aliança e da mutualidade entre diversos outros coletivos e movimentos.
Hoje os movimentos globais anti-capitalistas têm ressurgido com grande força e uma nova geração têm se envolvido em várias formas de protesto. Os Anonimous, as marchas feministas, os debates de gênero e sexualidade, além de maneiras inovadoras de organização que buscam criar outras relações a partir da base coletiva, como as Acampadas e o movimento Ocupai.
No diálogo com essa nova geração é preciso, contudo, tratar de velhas questões.

A questão de gênero tem se tornado altamente complexa, com o desenvolvimento de novas problemáticas: pós-feminismo, movimento GLBT, movimento queer e até pós-queer. Entretanto, um velho embate ainda se trava entre mulheres e homens, em busca de uma ruptura com o machismo. Nesse ponto, vejo como necessária uma reflexão sobre as práticas que almejam criar a partir de agora um outro mundo possível.
Para além das acusações, do policiamento das palavras, das avaliações estritamente racionais, da maquinação conceitual, dos julgamentos com base nos discursos, precisamos encontrar práticas de “mais amor, menos motor”, como dizem os amantes da bicicleta.
Nesse sentido, alguns (dentre vários) campos chaves devem ser revirados para que se plantem e se colham relações mais livres e solidárias: a divisão do poder, a divisão do trabalho e as relações amorosas-sexuais. Do meu ponto de vista, o caminho para se tratar de todas elas parte de um princípio básico: mutualidade, solidariedade, aliança, apoiar e fazer pelo outro como o outro apóia e faz por você.

Quando o coletivo Ativismo ABC tomou posse da Casa da Lagartixa Preta “Malagueña Salerosa”, muita reforma e façamos-nós-mesmos foram necessários para começar. Nessa época, apesar do número de mulheres e homens no coletivo ser equilibrado, quase sem querer, vimos-nos reproduzindo estereótipos da divisão sexual do trabalho: mais mulheres na cozinha, mais homens na pedreiragem. Logo nos demos conta disso e passamos a inverter e misturar as estações. O prestigiado e pesado trabalho de construção passou a ser experimentado com ênfase pelas mulheres, o interminável e pouco valorizado trabalho da cozinha, da lavagem de louça, da limpeza, pelos homens.
Cedo sentimos a necessidade de divisão voluntária de tarefas e da importância das reuniões coletivas de discussão e planejamento em que todas e todos tinham voz, buscando o consenso, sem ignorar o dissenso. Quando nos deparamos com um importante texto de crítica feminista que circulava entre anarquistas da época (A Tirania das Organizações Sem Estrutura, de Jo Freeman, que salienta a importância da formalização organizacional, contra o esponteneísmo que fazia com que grupos de amigas em torno de causas políticas acabassem privilegiando pessoas mais bem articuladas e com mais contatos, criando posições de liderança que supostamente não existiam, marginalizando as menos antenadas ou mal relacionadas), identificamo-nos com as propostas da autora e passamos a praticar mais maneiras de anti-poder.
Tornamos o eixo diagonal da autoridade, do conhecimento e da experiência em relações mais horizontais: transmitir os conhecimentos entre o maior número de pessoas, dividindo comissões, tornando rotativas as funções. Tarefas como a de tesouraria, gerenciamento de lista de e-mail, contatos externos, zeladorias da casa, limpeza etc. passaram a conviver com comissões específicas: da horta, da biblioteca, do nosso jornal El Saleroso, dentre outras. Reconhecemos, contudo, que as pessoas tem suas particularidades e dificuldades, e que o saber de cada um deve ser valorizado.
Para além das tarefas e comissões, algumas pessoas mais ativas, antigas no coletivo ou mais expansivas em suas relações externas continuam a se destacar, dentre essas pessoas várias são mulheres. Não sem insistirem que outros, menos participativos ou mais tímidos, também circulem mais em nome do coletivo.
O trabalho da pedreiragem tornou-se uma espécie de índice, para vários membros do coletivo, da busca de autonomia e da ruptura com a divisão sexual do trabalho, mas ainda parece ser mais valorizado do que outros, como o de limpeza ou louça. Não que esses trabalhos não sejam também divididos e executados. Em alguns casos, novas divisões sexuais parecem surgir, seria interessante perceber se são obra do acaso, da preferência pessoal ou não. Por exemplo, a tesouraria, apesar da rotatividade, nunca foi voluntariamente assumida por nenhuma mulher.
A transformação dessas relações é um trabalho e uma política permanentes e inacabados, mas temos lidado com elas de maneira frutífera, sem grandes rupturas ou rachas, graças a um princípio básico: prezamos pelo debate, pelas decisões coletivas dialogadas, pela aliança entre as diferenças.

Já nossas relações amorosas são menos debatidas coletivamente e são as mais variadas. Casais já se formaram, alguns terminaram, relações livres foram mantidas entre alguns, opções sexuais diversas foram expressas de maneira tranqüila. Temos tentado amadurecer uma discussão sobre amor livre.
Mas no plano do discurso, mais do que no da prática, temos encontrado dificuldades, sobretudo ao levar a questão para fora do coletivo. Na tentativa de promover debates, encontramos discursos de vitimização vindo dos “dois” lados e trocas de acusações entre homens e mulheres. Parece que, nesse campo, os conceitos se tornaram verdadeiras barreiras para as práticas. As maneiras de sentir e de se envolver emocionalmente parecem mais resistentes, ainda assombradas pelo moralismo, pelo individualismo, pelo romantismo burguês e pelo medo de abrir-se à alteridade.
Ainda assim, temos nos esforçado no coletivo para estabelecer um relacionamento interpessoal carinhoso, demonstrando afeto, tocando, abraçando, beijando, experimentando (não sem dificuldade ou falta de costume) contatos corporais que fujam ao padrão beijo-no-rosto-e-aperto-de-mão. Penso que, nesse ponto, o amor encontra-se com a amizade, ao contrário do que dizem algumas canções da música popular.

Acredito que o desentendimento em torno das relações de gênero pode ser vencido se buscarmos práticas de apoio mútuo entre mulheres, homens etc..
Certamente, na divisão do trabalho e do poder, essas formas de reciprocidade são mais fáceis de serem compreendidas: nos intercâmbios de conhecimento, na atividade conjunta, na divisão das tarefas e das responsabilidades (como bem propôs Jo Freeman), levando-se em conta a rotatividade não só pessoal mas também de sexo e gênero.
No que concerne ao amor, as maneiras de se relacionar são variadas e pessoais e é difícil traçar um plano de ação coletivo sem ferir liberdades.
A fala, a conversa, ainda é uma maneira de se apoiar mutuamente. Mas uma conversa que trate mais de experiências vividas, tentadas ou frustradas, do que de conceitos previamente estabelecidos. Que mulheres possam ouvir e aconselhar homens, gays ouvir e aconselhar héteros, queers ouvir e aconselhar amantes de preferências menos plurais e vice-versa ou entre si, sem a ilusão de que as coisas se passem de maneira igual para cada parte. Conhecer como a alteridade se sente é uma maneira interessante de desconstruir muros e abrir campos férteis.
Quando se trata de fazer justiça contra violências de gênero, brigas ou dificuldades surgidas entre pessoas parceiras, têm sido gestadas formas muito mais libertárias do que o julgamento sumário e o escracho. Formas de justiça restaurativa, como o Círculo Restaurativo, parecem-me alternativas viáveis, surgidas há pouco tempo entre os movimentos populares e valorizadas por uma parte da nova geração. Envolvem a valorização da conversa e dos sentimentos, bem como o compromisso de sanar o mal que se fez ao outro através de ações práticas. Para mim, isso tem muito a ver com o apoio mútuo.
Se queremos reconstruir juntos uma vida coletiva, não me parece a melhor alternativa reproduzir nela práticas burguesas e patriarcais de julgamento (policiamento, apontar dedos, ataques sumários), a não ser que queiramos estar para sempre separados e em guerra contra aqueles que são inimigos dos nossos inimigos. Se queremos transformar as relações de gênero, precisamos saber transformar “inimigos” (homens versus mulheres, ou mesmo correntes de pensamento ou anarquismo diferentes) em amigos, não simplesmente “perdoando-os” de seus fardos históricos ou pessoais, mas distribuindo os fardos e desconstruindo não só gêneros mas pessoas, reconhecendo suas necessidades, debatendo formas de satisfazê-las.

Enfim, o amor é uma chave das políticas de apoio mútuo. Sejam elas de trabalho, de divisão do poder, de conhecimento das angústias e dificuldades da outra e do outro, de amizade, intimidade e, finalmente, enamoramento e sexualidade.
Não é só de luta e guerra, necessárias, que vivem aqueles que buscam por uma vida livre.
Proudhon, quando pensou o mutualismo como fundamento do princípio federativo libertário, mesclando num só movimento a política e a economia, deixou o amor de fora, cioso dos valores familiares e monogâmicos do século XIX… Mas podemos tomar as sugestões de Proudhon e superá-lo. Afinal o tempo não pára, ele volta e vai, trazendo o amor para a política e a política para o amor, buscando praticar hoje uma vida que valha a pena ser vivida. Nesse sentido, pensar o apoio mútuo no amor é também pensar o apoio mútuo com amor, constituindo alianças libertárias.


Escrito por Guilherme às 17h08
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