A Cidade do Anti-Individualista Solitário

20/07/2012

Patriarcado: o mito da servidão voluntária feminina? (I de IV)

Tenho notado atualmente nos discursos feministas um apelo preponderante à noção de “patriarcado” como fundamento científico de suas justificativas políticas.

Já expressei minha insatisfação com esse cientificismo mitificador noutros textos deste meu vagaroso blog, o que tomou forma coletiva no livro De Volta Para o Futuro Primitivo (publicado pela editora libertária Deriva: http://www.deriva.com.br/), coletânea vinda à luz há uns meses atrás depois de poucos anos de gestação.

Resolvi abordar de novo o uso político da história porque me parece a melhor entrada para uma questão de gênero que tem incomodado a mim (e às companheiras que me aturam) faz tempo: o obscurecido poder feminino nessas relações.

Parece a melhor entrada porque é justamente a história do patriarcado que abre as portas de muitos discursos feministas que tenho lido e ouvido recentemente. Se abriram as portas, aceito o convite de entrar.

Espero, nalgum momento depois desta entrada, ao lado do cabideiro, despir-me da armadura da história, mais pesada que a de um guerreiro medieval, expondo meu corpo ao debate, trazendo o debate para o corpo-a-corpo das nossas vidas.

*

Acredito que depois de tantas turbulências nas hierarquias de gênero neste último século, as mulheres acabaram esquecendo de eliminar um dos fundamentos desta “construção histórica”: apontam para todos os pilares fálicos, as flechas de atravessar corações ou os foguetes de destruir em massa, os mastros da lona desse circo, e se esquecem do vão central do picadeiro, das funduras das fundações estruturais, do buraco mais em baixo e seu abismo.

*

A versão resumida do mito científico do “patriarcado” diz basicamente o seguinte: em um período tal ou qual da pré-história, alguns estudiosos afirmam ter existido, conforme certas evidências fósseis ou arqueológicas, organizações coletivas prévias em que predominava o “matricentrismo” (“matriarcado” seria poder demais!), fundado no poder feminino de gerar a vida. Intrigados, ao descobrirem uma era depois o papel masculino na concepção de outras pessoas, os homens tomariam o poder, dando início ao “patriarcado”. Essa virada de mesa ou, melhor, transformação da mesa em uma pirâmide de dois degraus, teria marcado a história até hoje.

Não vou me ater a críticas aos dados arqueológicos e históricos ou à crença na ignorância masculina primitiva sobre a concepção. Só aconselharia não ver tantas certezas assim num sistema de conhecimento – o científico acadêmico – que tem como base a dúvida.

Mas prefiro falar do ponto fundamental da virada de mesa sugerida por essa história, mito ou mito-história: a tomada do poder das mulheres pelos homens.

Como imaginar, em algum momento do tempo, que os homens tenham tomado o poder das mulheres, ou instaurado o poder sobre as mulheres, e que as mulheres não tenham resistido? Ou que, malgrado tentassem, não pudessem vencer a força masculina? Que armas invencíveis detinham os homens contra elas? Como teriam sido derrotadas? Enfim, por que as mulheres teriam perdido?

A idéia de que os homens teriam tomado o poder das mulheres sem resistência por parte delas parece imitar um odioso argumento do estupro: se aconteceu, é porque a vítima deixou, dizem.

Para não recair nele, pensemos em situações menos violentas, em casos menos escandalosos, como relações de longos anos em que um dos parceiros exerce sobre o outro pequenos abusos. Nestes casos, cabe perguntar: por que a parte abusada não dá um basta? A não ser que tenha um saber e um poder muito menor – como uma criança seduzida por um adulto – uma reação desse tipo não é essencialmente impossível. Pois a relação de gênero exposta na hipótese pressupõe, a princípio, dois lados fortes, ainda que qualitativamente diversos: o homem que, segundo o mito, deseja subjugar; e a mulher que, segundo a mesma história, tem um poder a mais e não está ainda em situação inferior. Ainda tem a força.

Se a tomada de poder dos homens contra as mulheres for pensada como conspiração, como golpe de mão forte, ataque inesperado, pode facilmente remeter a uma revolução autoritária, um estupro violento. Mas para um gesto desses tomar de assalto toda a humanidade, seria preciso antes de tudo uma humanidade una, uma história una (contada num livro uno, provavelmente sobre um deus uno).

Imagine-se, então, esta única humanidade na qual a distinção de gênero ficasse tão gritante de repente (e não mais que de repente) mas que logo em seguida se estabilizasse, com os homens acima das mulheres. De um só golpe, teria sido retirada das mulheres toda capacidade de reação.

Acontece que as alusões ao “patriarcado” muitas vezes pressupõem um “matriarcado” (ou algo “matrifocal”, “matricêntrico” etc.) no qual as distinções de gênero já estariam estabelecidas entre homens e mulheres... E essas distinções teriam, de alguma forma, munido os homens da força que usariam para subjugar as mulheres, mantendo-as durante milênios a seguir alheias às técnicas de uso desta força. Ou seja: um já estaria contido em seu contrário.

Mas e se a tomada de poder masculina não tivesse sido tão radical assim? Tivesse sido mais gradual, lenta, amena?

Bem, diriam, então não seria masculina, já que as técnicas não violentas de poder costumam ser de conhecimento feminino. Ou então, na melhor das hipóteses, haveria algo de subjetivamente feminino na lenta ascensão masculina, já que, seduzidas pela malevolência trigueira dos homens, as mulheres teriam aceitado papéis, assumido postos, tomado decisões.

Seduzidas? Se queremos considerar as mulheres como agentes, como capazes de tomar atitudes e como pessoas que tiveram tal capacidade usurpada, é preciso considerar que tinham esta capacidade e que, nesse processo agiram, menos ou mais, conforme a própria vontade.

A questão é parecida com a de La Boétie, em O Discurso da Servidão Voluntária. Ele pergunta aos súditos do Estado: se o tirano é só um e vocês são vários, por que não se rebelam? Uma das respostas possíveis é dada pela corte do tirano, aqueles três ou quatro, cinco ou seis, que estão logo abaixo dele e que obtém vantagens dessa posição. E assim sucessivamente, o servo se aproveita do senhor, até os níveis mais baixos da cadeia humana.

A comparação entre a relação de gênero “patriarcal” e o argumento da servidão voluntária pode não ser boa: estatisticamente, o número de homens quase sempre empata com o de mulheres e, onde se vê um encadeamento piramidal da tirania, na relação de gênero se vê uma oposição diametral, ainda que hierárquica.

Mas é bom lembrar, conjugando as duas análises sobre a mesma realidade (a realidade da opressão e da servidão), que no topo da corte do tirano, ao seu lado ou abaixo dele, existe uma princesa. Princesa que, como cantavam os cavalheiros que lhe faziam a corte no fim da Idade Média, era a senhora de seus corações.



Escrito por Guilherme às 23h55
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Patriarcado: o mito da servidão voluntária feminina? (II de IV)

Enfim, resta a pergunta: como os homens, organizados ou não, teriam tido condições de dominar mulheres em número praticamente idêntico ao seu, sem que reagissem ou sem mesmo despertar nelas qualquer suspeita de golpe? Teria sido um golpe de sorte, uma violenta rasteira, da qual as mulheres custariam séculos a se levantar? Ou, num movimento lento e constante, alguma vantagem prévia masculina, em termos de força corporal, teria feito o truque?

Considerar que os homens eram mais fortes que as mulheres e que por isso venceram o conflito, seja repentinamente, seja gradualmente, pressupõe o dimorfismo sexual humano como anterior à história. Num momento histórico em que dizemos que “tudo é construído”, pensar que a força masculina é um dado natural soa como puro anacronismo.

Por sua vez, caso o dimorfismo de gênero não fosse prévio, seria então fundado naquele golpe e, portanto, a essência do masculino seria justamente o golpe, a violência. “Masculino” seria apenas o rótulo do vitorioso e dominador, daquele que usa da força.

Tanto faz, venha primeiro o ovo ou a galinha, o sêmen ou o homem: a associação entre masculinidade e violência é necessária para o argumento. Se a hipótese da conspiração masculina é quase absurda em termos historicistas, vem contudo ao encontro dos estereótipos de homem violento e poderoso e mulher carinhosa e submissa.

Por outro lado, a hipótese da lentidão, da história das disciplinas e da normatização do corpo, poderia apontar para poderes recíprocos na fundação das relações de gênero. A partir dela suporia que a força masculina é tão criada pela história da técnica e da disciplina corporal quanto a fraqueza feminina.

Mas a fraqueza é só feminina? Afinal, a história das técnicas do corpo modernas argumenta que para se disciplinarem conforme seus papéis, tanto os homens quanto as mulheres tiveram seus corpos docilizados. (Não fossem eles dóceis, seriam tachados de anormais, etiquetados e submetidos a mais disciplinamento, até que a armadura de adamântium da história fosse costurada dentro de seu corpo e, raivosos, esses anormais, punks, gays, queers, loucos, bandidos, mutantes, tivessem hipersensibilidade ao outro, gritando ao vê-lo se aproximar).

Conclui-se com isso que os homens são tão fracos quanto as mulheres, ao se subjugarem docilmente à disciplina. Por outro lado, o uso da violência masculina é tanto seu poder quanto sua obrigação, seu martírio, sua perdição. O que faz pensar que a fraqueza feminina possa ser, por sua vez, seu resguardo e sua proteção, uma sábia e poderosa escolha contra as intempéries da guerra e de sua extensão, a política.

Enfim, em algum ponto dessa história parece possível imaginar que as mulheres tiveram participação subjetiva nas definições das relações de gênero e que, por outro lado, os homens tiveram que se subjugar a certos padrões – de modo que os homens, que detêm tanto poder patriarcal, também estão subjugados de alguma forma. E as mulheres, ao subjugarem-se aos homens, também estabilizaram certas inversões hierárquicas e dispuseram-se de poderes sobre eles, por mínimos que forem. Poderes que precisam ser levados em conta ao se questionarem as relações de gênero.

*

Num texto inspirador para futuras mito-histórias, Pierre Clastres (antropólogo adorado por alguns primitivistas que também se pronunciam contra o “patriarcado”) fala do “Infortúnio do Guerreiro Selvagem”: o excesso de poder agressivo concentrado por uma elite de guerreiros assassinos do Chaco na América do Sul (mas também por outros heróis mais conhecidos, como o Jerônimo dos filmes de faroeste) não os teria levado à criação de uma força estatal porque se auto-sabotaria em sua própria essência, obrigando seus potentes praticantes à morte. O guerreiro só existe na guerra e precisa ir atrás dela a todo tempo, entregar-se sozinho, se preciso for, ao combate com incontáveis inimigos, entregar-se à morte. A máquina de guerra não se realiza como máquina de Estado ao se auto-sabotar, ao desviar de si mesma, contra si mesma.

Em meio a tantas perdas populacionais na guerra dos chaquenhos, Clastres surpreendeu-se com a falta de contrapartida de natalidade para suprir a depopulação. Por isso, sempre atento aos desequilíbrios e às inversões de hierarquia, aventou uma hipótese fundamental sobre as relações de gênero: a baixa natalidade desses guerreiros do Chaco seria fruto de uma reação das mulheres, descontentes do excesso de poder assassino masculino. Para isso, essas poderosas mulheres teriam colocado em prática métodos radicais de controle dos nascimentos, anticoncepcionais e abortivos.

Clastres identifica aí certo padrão das relações de gênero “selvagens”: quando o homem pilota a máquina de guerra, a mulher guia a máquina demográfica. Quando o poder do homem está em viver e morrer pela violência, o poder da mulher está em matar ou dar vida pela procriação.

Seria duvidoso generalizar para toda a humanidade as relações de gênero do Chaco ou mesmo de outras paragens ameríndias, mas a questão da mulher ameríndia tem intrigado faz tempo algumas antropólogas feministas1. O mérito de Clastres não precisa ser o de propor uma resposta universal para a questão do poder de gênero, mas sim balançar a própria noção de poder. Notar o quanto a hierarquia pode ser instável e alternada. O poder, numa relação que pesa diferentes qualidades nos pratos da balança, não está em nenhum dos pratos. Ou melhor, tenciona entre os dois: o ato da pesagem é constante, os agentes não param de interferir, a balança está sempre em movimento.

1 Para dar um exemplo dentre dezenas, veja o trabalho da antropóloga Vanessa Lea sobre a preponderância de poderes femininos do domínio doméstico sobre o público entre os Kayapó.


Escrito por Guilherme às 23h47
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Patriarcado: o mito da servidão voluntária feminina? (III de IV)

Esta leitura mais ou menos estruturalista da hipótese de Clastres1 não deve ser entendida como anti-histórica mas como a exposição de mais um ponto (quem conta um conto sempre “aumenta” um ponto) a ser posto em relação com outros para se considerarem as transformações estruturais nas relações de gênero. Em suma, se temos registros de conjunturas estruturais específicas nas relações de gênero ao longo dos tempos, e não apenas uma linha reta sem pontos de inflexão, como pensar o poder da mulher hoje, pós-século XX, quando já pode votar e ser votada, trabalhar assalariada, estudar e tirar notas altas, ocupar cargos e postos iguais aos ocupados pelos homens? Sim, ainda faz isso com prejuíso, ganhando menos, com dupla jornada, mas são conquistas perante um estado anterior muito mais desigual.

Por que comparar este momento histórico somente ao momento mito-original do surgimento da desigualdade “patriarcal” de gênero e não compará-lo, na cadeia de transformações estruturais do sentido dado ao tempo, a momentos como o surgimento do amor cortês e da figura da Princesa, por exemplo, senhora do amor de tantos súditos-poetas?

A Princesa tem uma espécie de poder romântico, poder do amor. Não o poder de amar, veja bem, mas o de ser amada. Se, segundo Maquiavel, para o Príncipe é melhor ser temido do que ser amado, para a Princesa, muito pelo contrário...

Opondo essas duas formas de poder, a do Príncipe e a da Princesa, se a política é a guerra por outros meios, haveria uma outra política por trás desta, uma política do amor? “Por trás” não no sentido de mais verdadeira, mas de fundo (como na relação entre figura e fundo)? De modo que, como diriam os franceses, precisamos “cherchez la femme” – procurar a mulher –, encontrando nela o motivo dos conflitos entre os homens?

Levando essas perguntas em conta, deve-se notar que o comportamento e a estética femininas, na virada moderna e pós-moderna dos séculos, mantém uma continuidade muito aparente com a estética nobre da era pré-burguesa, com o luxo cortesão que, na era pós-industrial, já não se trata necessariamente de pura riqueza. Nem nunca se tratou: à mulher da primeira burguesia não adiantava ser muito mais rica que à nobre se não se comportasse como mulher da corte.

Corte que é aquele círculo de três ou quatro, cinco ou seis – conforme a ironia de La Boétie – de bajuladores do poder.

Se depois da revolução burguesa homens dominantes desceram do salto alto, pararam de usar peruca e pintar a cara, arregaçaram as mangas e cortaram as unhas, as mulheres dominantes continuaram constituindo seus corpos de modo a valorizar o que há de mais distante neles da vida prática. Ainda que a mulher, em dupla jornada, agache para limpar o chão de casa ou da rua, o ideal estético da mulher não é o mesmo ideal estético do homem: mesmo quando bem arrumada, a estética dominante masculina se afirma como rústica, sóbria, pragmática: no máximo, terno escuro e gravata.

A figura feminina contemporânea depende de uma série de subterfúgios estéticos e comportamentais semelhantes aos da corte nobre. Como nobres, a maioria das mulheres ainda usa maquiagem, roupas complicadas, penteados arquitetônicos, apliques, saltos altos, muito mais jóias que os homens e várias outras formas de embelezamento. Até a mulher menos endinheirada deve provar-se mais alta e elevada, distanciar-se da vida grossa e suja, encher-se de mesuras, nojos, delicadezas e não-me-toques (ao contrário da troca de pancadas costumeira entre os homens). É toda uma idéia que em língua portuguesa se chama “frescura” - palavra que, em seu sentido mais próprio, fala de jovialidade, leveza, resfriamento...

Em suma, a forma correta e dominante de tratar as mulheres continuou sendo a forma nobre, cavalheiresca, pré-burguesa. Diversos comportamentos continuam sendo reforçados como deveres masculinos (comportamentos que têm tido sua ritualização máxima na reacionária “comemoração” florida do Dia das Mulheres): ceder o lugar a uma dama, servi-la primeiro, bajulá-la, estar pronto para ampará-la, ser praticamente seu guarda-costas. O homem é, nesse papel, não o Príncipe, mas o cortesão da Princesa, cavalheiro e cavaleiro. A Princesa jamais se entrega a ele, somente ao Príncipe, ou melhor: aquele à qual ela se entrega se torna o Príncipe, de quem ela será a servidora voluntária número Um. Jamais contra o Um, mas a favor dele, pois é nessa relação que constitui seu poder.

Não é por menos que tantas mulheres se casam vestidas de noiva, de princesa. Apesar das conquistas do século XX, as mulheres do mundo Capitalista continuam tendo que compensar o dimorfismo sexual “historicamente construído” (que as torna mais baixas e fracas que os homens) usando sapatos de salto alto. E a saia, cujos movimentos levam à fácil exposição das “partes íntimas”, continua sendo roupa predominantemente feminina no chamado “Ocidente”, sendo que a calça, mais prática e menos expositora, continua sendo a única roupa digna da maioria dos homens.2


1 Inspirada tanto pelo famoso antropólogo Lévi-Strauss como por estudos atuais feitos por seus discípulos – vale a pena procurar os trabalhos de Beatriz Perrone-Moisés e Renato Sztutman sobre política ameríndia, por exemplo.

2 Obviamente, nenhuma dessas peças de roupa, dessas estéticas e comportamentos, em si, contém o germe da dominação ou simboliza plenamente a aceitação de todos os valores vinculados a elas. Não é porque usa saia ou mesmo se casa de noiva que uma mulher está aceitando plenamente esses papéis, ou por usar calças e terno o homem esteja fazendo o mesmo. Tampouco basta não se vestir de noiva ou não usar saia para uma mulher romper com isso, ou então usar saia para o homem romper com isso. Esses elementos não são determinantes, mas compõem a cena, a situação contemporânea de gênero, e devem ser considerados em relação entre si e com as vidas concretas, práticas ,crenças e não-crenças de suas pessoas – mas que existem, existem.


Escrito por Guilherme às 23h46
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Patriarcado: o mito da servidão voluntária feminina? (IV de IV)

Finalmente, como é possível, hoje em dia, existirem tantas princesas e ao mesmo tempo tantos vilões – mas tão poucos príncipes encantados?

Quem quiser trazer estatísticas para o debate, sugiro procurar o assustador percentual de mortes violentas masculinas comparado ao percentual de mortes violentas femininas, causadas pelos próprios homens. Há uma distinção de gênero clara nesses índices: quando comparados com as mulheres, os homens são tanto os mais violentos quanto os que mais sofrem violência.

Se o fato dos homens serem mais violentos confirma a hipótese da dominação violenta masculina, o fato de sofrerem mais com isso coloca-os num patamar abaixo das mulheres em termos de “qualidade de vida”.

Pensando, por exemplo, os índices de violência da sociedade brasileira contemporânea, seria tentador fazer sobre ela a análise que Clastres fez sobre o Chaco: os homens estariam sendo vítimas de seu próprio poder. Entretanto, as mulheres, proibidas de abortar, não teriam condições de reagir a isso – para a infelicidade dos buchas-de-canhão.

Se são vítimas desse poder, por que os homens ainda insistem tanto nele? Não seria porque precisam provar, também para as mulheres, que podem defendê-las, lutar por elas, estar a serviço delas? Não estariam os homens, portanto, sujeitos a uma inexplícita opressão feminina?

*

Não quero, com isso, fazer um discurso de vítima e encobrir as reais opressões exercidas pelos homens diariamente contra as mulheres. Essas formas de opressão são muito bem documentadas, estudadas e conhecidas, e a luta contra elas é legítima e cotidiana. Também sou inimigo da violência masculina contra a mulher e de diversas outras maneiras mais amenas de opressão.

Entretanto, nota-se tanto uma servidão voluntária masculina ao assumir o papel violento para o qual foi indicado (e ao servir de bucha de canhão de quem não vai para a guerra...) quanto uma opressão violenta que os homens sofrem diariamente quando sequer tentam escusar-se deste papel.

O que aponta para o quanto as mulheres também se vitimizam, ao ignorarem a opressão sofrida pelos homens e as vantagens que elas obtém disto.

Para abandonarem o posto da vítima é preciso que assumam os riscos da luta, os treinos para a guerra, o promissor infortúnio da guerreira selvagem1. Uma luta que não se aprende de uma hora pra outra: qualquer garoto criado pela disciplina corporal escolar – ou pela escola da rua – pode lhe contar o quanto teve de repetir em “chamadas” orais e braçais ao longo de sua vida a lição da “lei do mais forte” e o quanto teve de apanhar.2

Para abandonarem o posto da vítima e de candidatas à guilhotina, também é preciso que as mulheres abdiquem do lugar de nobres: que desçam do salto, do pedestal, do trono e do altar amorosos. Que não busquem pelo Príncipe, pelo Um. Que coloquem-se, perante o homem, no mesmo plano que ele: o plano de seus corpos, com suas variações de tamanho, peso, força, gordura, aptidões, capacidades, desejos, inferioridades e superioridades. No plano dos embates, riscos, acidentes, toques, tentativas, aberturas e fechamentos, procuras e ofertas, experiências. Seja no plano mundano, seja no plano da magia simpática, fazendo sagrado e profano apertarem as mãos. Independente de qual seja o gênero da relação.

1 Ou, se preferirem – por que não – a luta pelo aborto.

2 Algumas mulheres com quem já conversei sobre isso realmente ficam surpresas com a rotina de violência a que um homem está sujeito ao longo de seu desenvolvimento pessoal.

P.S.: Fui lembrado por uma mulher de que muito deste argumento remete ao de Colette Dowling, em Complexo de Cinderela, obra que já tive em mãos.

P.P.S.: O argumento da servidão voluntária não aparece aqui para justificar a dominação - "ah, as mulheres querem servir" - mas sim para que tanto os homens possam criticar sua própria servidão à guerra quanto as mulheres possam criticar seu poder amoroso e cortesão. Tampouco esse argumento pode ser extendido a tudo - racismo, especismo etc., o proprio La Boétie apresenta impedimentos a essas generalizações em seu argumento, falando inclusive sobre os animais. Além disso, se me expresso a partir dos extremos do gênero - o homem, a mulher - não quer dizer que devamos nos manter estereotipados, mas sim que devamos reconhecer e criticar os estereótipos que se realizam nas práticas.


Escrito por Guilherme às 23h45
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