A Cidade do Anti-Individualista Solitário

25/01/2012

Violência Policial em SP: tradição ou novidade?

Eu estava conversando com uma amiga que está longe da internet, para saber se ela compartilhava dessa percepção que a gente que passa o dia online tem da escalada de violência em São Paulo.

Porque hoje é certo que a internet e as câmeras fotográficas eletrônicas e filmadoras de bolso ajudam muito a disseminar uma informação que antes estava restrita aos silêncios locais, às histórias de bar, aos jornais panfletários (nos sensacionalistas o que sempre apareceu foi o inverso), às vidas dos pobres em dinheiro e dos marginais do mercado.

Ela acha que, embora a violência sempre esteve aí, citando até um documentário do Zumbi Somos Nós e uma pesquisa a respeito da história da polícia - sempre a serviço da propriedade (como sempre disseram os socialistas) -  e que "direitos humanos" era o nome do cacetete usado na FEBEM, está havendo um aumento, sim.

Esse aumento, conforme dialogávamos, tem a ver com a ascensão social e a entrada no mercado de certas camadas da população que foram marginalizadas ao longo dos séculos e que agora, por bem ou por mal, são tragadas pelo sistema com mais intensidade. Desenvolvimentismo, enfim. Pois esses novos "incluídos" demandam direitos que antes não tinham. Com isso, o mecanismo de distribuição da violência estatal explode, chegando aos pólos mais extremos. Cracolândia e Universidade: essas são as novidades do ano.

Desalojo de moradores de ocupações, infelizmente, não me parece novo. Não menos pior, mas é algo do que temos ouvido falar com mais freqüência. Saber da polícia ocupando com violência um espaço universitário é coisa que não acontece desde a ditadura. E o tratamento dado aos craqueiros, se em alguma medida remete ao que já foi feito contra os camelôs no centro de SP, parece mais degradante: é como espancar doentes.

Agora, se a polícia "sempre foi assim", como dizem os conformados, porque outras coisas mudaram? Por que, por exemplo, a educação pública no Estado de São Paulo, que abrigou e formou esta classe média que hoje é maior de sessenta anos de idade, está tão achincalhada? Por que temos tantos pedágios em São Paulo, se antigamente podíamos viajar livremente por este estadão, inclusive de trem? Por que não se vê mais carros velhos nas principais avenidas do Estado, e o paulista - se não o brasileiro - vive cada vez mais em função de trocar e financiar o carro do ano que vem pelo carro do ano passado? Muitas coisas mudaram, a vida "melhorou" para muita gente, muitas coisas pioraram, outras continuaram iguais? Enfim, por que umas coisas mudam, outras não?

Até hoje a sociedade burguesa paulista tem sido preparada para incluir certos tipos de gentes em detrimento de outros. Há poucos séculos atrás, a opção foi feita pelos imigrantes brancos em detrimento dos ex-escravos negros. Com a chegada de imigrantes mais queimados de sol, ficou mais difícil diferenciar pelo contraste. Uma mudança começou e vemos hoje o seu resultado. Enquanto esses imigrantes da seca chegam aos pouquinhos à gerência, à presidência e aos antigos clubes operários da barulhenta classe média do subúrbio, parece haver um vazamento nas tubulações de transmissão de riqueza e não se sabe escolher entre fechar o registro ou encher a torneira de pancada. E se nada disso der certo, ainda haverá um jeitinho?

Como vamos acolher o futuro dessas relações? Num futuro desenvolvimentista e kafkiano? Ou no futuro do pretérito? Com um abraço? Ou com uma porrada? Será que vamos ter de imitar os estudantes chilenos que abraçaram a tropa de choque? Como irá nos retribuir: sorrisos ou borrachadas? Pelo amor, governador...

Triste aniversário para a capital: esta é a cereja de um bolo em forma de pirâmide que tem sido construído há mais de quatrocentões anos.

 

 


Escrito por Guilherme às 14h02
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