A Cidade do Anti-Individualista Solitário

03/01/2011

Sobre tomada de decisões (I de III)

O Ativismo ABC, coletivo do qual participo, está num esforço de teorização sobre suas práticas e pretendo contribuir com isso analisando um ponto que considero fundamental para uma vida mais libertária e solidária: a tomada de decisões.

Nem sempre duas ou mais pessoas aliadas precisam tomar uma decisão que afete sua vida comum. Podem, mesmo sendo aliadas, viver diversos aspectos de sua vida separadamente, ou com pessoas diferentes. A primeira liberdade é, portanto, não ser obrigado a estar vinculado somente àquela relação ou coletivo.

Outra liberdade possível, dentro de uma experiência coletiva, é poder levar sua própria vida, seus fazeres e não-fazeres, sem precisar da concordância de todos. Para isso é preciso uma outra concordância: a de que cada um, ou dois, ou mais, possam fazer ou deixar de fazer algo por conta própria para o coletivo. Mas o problema aparece quando essa decisão desagrada alguém do coletivo...

Neste caso, bem como nos casos em que um coletivo libertário e solidário decide fazer algo junto, é preciso que a decisão seja tomada de forma comum do modo o mais livre e solidário possível. Assim, em prol da solidariedade, a liberdade de cada um deve estar subordinada à liberdade dos outros. Portanto, deve estar obrigada a ela. Caso contrário, basta simplesmente que haja uma cisão, uma separação, o final da relação.

Mas se o desejo é o de manter a relação, então é preciso que haja alguma forma de abertura por parte dos envolvidos, de aceitação da vontade do outro, de transformação da vontade.

Quando duas ou mais pessoas desejam fazer algo juntas ou que afete umas às outras, já de partida têm algo em comum. É esse algo em comum, a comunhão de um espaço ou meio, o desejo pela mesma coisa, um objetivo a ser alcançado, uma tarefa a ser feita, a realização de um sonho, que de algum modo às mantêm juntas. Há também o desejo pelo outro: duas ou mais pessoas estão ou podem estar juntas porque querem uma à outra, porque encontram na outra algo que não encontram em si mesmas, porque buscam na própria relação um fundamento de vida.

Na relação, por princípio ou por acaso, a diferença cedo ou tarde se manifesta. Por mais de acordo que duas ou mais pessoas estejam, justamente por estarem também em outras relações, trazem influências diversas. E quando estão em posições diversas na mesma relação, podem ter pontos de vista diversos sobre o mesmo objetivo ou sobre a própria relação (um casal; dois times jogando o mesmo jogo; alguém que empresta ao outro alguma coisa e pretende reaver o que emprestou etc.).

 


Escrito por Guilherme às 13h56
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Sobre tomada de decisões (II de III)

Os exemplos mais banais mostram que a diferença está presente nas pequenas coisas, não só nas grandes. Se temos problemas em aceitar as grandes diferenças – ideológicas, religiosas etc. – e se traçamos limites os quais não pretendemos ultrapassar, ainda assim precisamos lidar com as diferenças que surgem no cotidiano e que, muitas vezes, são constitutivas da própria relação.

Duas pessoas pretendem colocar um quadro numa parede, já tendo acordado qual será o quadro e a parede. Uma delas acredita que usando um martelo e um prego seja o melhor jeito, outra acredita que o melhor seja uma furadeira, uma bucha e um parafuso. Como decidir? Como as duas pessoas podem chegar juntas a um consenso? Se o prego e o parafuso parecem banais demais, que tal trabalhos coletivos maiores, como a construção de um forno, a manutenção de uma horta, a pintura de uma parede, a escrita de um texto, ou a melhor estratégia de ação, inação, trabalho, lazer, prazer, vadiação? Vamos jogar capoeira, sinuca ou futebol? Quais são as regras do jogo? De quem foi o ponto, do meu time ou do seu? Devo ceder ao movimento do outro para continuar o jogo, ou travar o movimento e o jogo?

Parece-me que o princípio básico para qualquer uma dessas situações pode ser resumido da seguinte forma:

Duas pessoas têm opiniões diversas sobre a mesma decisão a ser tomada. Essas duas pessoas podem discordar até o fim, jamais ceder, de modo que a decisão fica comprometida e, possivelmente, a própria relação. Entretanto, uma das pessoas pode ceder, movida pelo convencimento da outra pessoa, concordando que aquela é a melhor solução; ou pelo desejo de fazer algo em conjunto com a outra pessoa, mesmo discordando de que aquela seja a melhor solução, para evitar uma crise na relação; ou pode simplesmente superar a distinção entre “melhor” e “pior” solução, em nome da aposta na aventura. Uma terceira opção seria o caso em que as duas pessoas cedessem. E aí, o que acontece? O que parece um contra-senso – as duas cederem – acaba se tornando um consenso.

Porque quando as duas pessoas estão dispostas a ceder, o que acontece é o próprio movimento da relação, o diálogo, a constituição de uma solução consensual, talvez tradicional, talvez inovadora, conforme o velho adágio de que “duas cabeças pensam melhor do que uma”, ou dois corpos se abraçam melhor do que um. Nessa disposição, as duas podem até chegar à conclusão de que uma das duas propostas iniciais seja a melhor, a despeito de quem tenha sido o dono da idéia. Nesse sentido, dar uma idéia é recusar a propriedade da mesma, recusar sua integridade, sua imutabilidade.

Mesmo quando só uma pessoa cede, pode haver reciprocidade e mutabilidade na relação. Entretanto, se apenas uma pessoa cede, o tempo inteiro, enquanto a outra pessoa é sempre a dona da idéia, da verdade e da razão, o que acontece é uma relação de mão única, sem reciprocidade. É uma relação de propriedade, de dominação. Se nem sempre as pessoas estão dispostas a ceder, entretanto é preciso que estejam dispostas a ceder muitas vezes, constituindo uma reciprocidade de decisões, uma alternância. A não ser que prefiram ou uma relação autoritária, ou abandonar a relação sempre que houver discordância.

 


Escrito por Guilherme às 13h46
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Sobre tomada de decisões (III de III)

Nem toda hierarquia constitui-se uma relação autoritária. Entre uma e outra pessoa, é possível que uma delas tenha mais conhecimento e experiência no assunto. Por outro lado, a menos experiente pode estar disposta a fazer experimentos. E esses experimentos podem trazer inovações importantes à tradição. Assim, é preciso haver uma reciprocidade entre o experiente e o experimental, o tradicional e o inovador, o certo e o ousado, o repetitivo e o criativo. Algumas tradições mais hierárquicas não permitem que inovações advenham dos níveis mais baixos da hierarquia, outras permitem, há uma variação muito mais de grau que de estado. Muitas vezes os mais experientes, devido à própria sabedoria, sabem aproveitar as inovações trazidas pelos mais novos. Inclusive porque quem é inexperiente em alguma coisa pode ser experiente em outra, trazendo para aquela relação experiências de outras relações. E essa mistura de experiências pode surpreender. Quanto mais experimental uma relação, mais aberta à surpresa e ao erro ela está. O erro, enfim, é essencial para o aprendizado. Diversas formas de tomadas de decisão coletiva envolvem uma mistura da sabedoria dos mais velhos com o poder transformador dos mais novos. Aprender é transformar-se. Estar aberto ao outro, saber ceder, é estar aberto ao aprendizado. Não um mero aprendizado de quem sabe menos com quem sabe mais, mas um aprendizado a partir da experiência desta relação. A sabedoria parece-me consistir muito mais em saber aprender, em aprender a aprender, do que em apenas saber.

Para terminar, cabe uma autocrítica ao anarquismo. Muitas vezes em movimentos políticos radicais, imbuídas de uma recusa contra as formas de dominação maiores, as pessoas trazem para dentro do movimento o mesmo tipo de atitude que mantêm perante as instituições dominadoras que não aceitam dialogar. Ou seja, a recusa em ceder, que é necessária quando queremos romper com uma relação sem diálogo, mas que é perniciosa quando queremos constituir relações dialógicas. O resultado disso é conhecido na história do socialismo e do anarquismo: o sectarismo, as trocas de acusações, a incapacidade de construir relações alternativas, a incapacidade de se transformar. No afã de serem elas mesmas, as pessoas se esquecem de serem outras, separando-se cada vez mais.

No mais, tudo é possível. E se você não concorda com minha análise sobre a tomada de decisões, podemos dialogar mais sobre o assunto...

 


Escrito por Guilherme às 13h37
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