A Cidade do Anti-Individualista Solitário

04/09/2009

Quem policia a polícia anarquista?

O anarquismo, por mais contraditório que isso possa soar, sofre de um fenômeno muito característico de movimentos coletivos que buscam uma autonomia em relação a outros: ao questionar a ordem vigente ele muitas vezes inventa uma nova ordem.

De desviante e impuro, o movimento pode virar uma busca por pureza e retidão. No limite, tudo aquilo que é contra a ordem vigente se transforma na nova ordem. Por exemplo: se o normal da “sociedade burguesa” fosse o heterossexualismo, casar, ter filhos, andar de carro etc., a nova ordem seria fazer o oposto disso tudo. Quem não fizesse isso seria considerado, em suma, “burguês”. E, por que não, “fascista”...

Mas a “sociedade burguesa” sempre lidou bem com esse tipo de coisa, justamente porque esse tipo de coisa é tão ordeiro quanto ela mesma.

Atualmente o mercado da sexualidade está aberto para todo o tipo de experimentação e os relacionamentos pessoais são muito mais fugazes que qualquer casamento. Um amigo me falou que se casar é hoje uma transgressão. Todo o resto é “politicamente correto”. Correto até demais.

Note bem, caro leitor (anarquista ou não), que não estou aqui levantando a bandeira de uma “ordem anarquista” contrária ao pansexualismo ou aos transportes alternativos. Muito pelo contrário! Estou defendendo é a falta de ordem.

Encaro a anarquia como uma ode ao desvio, à discordância, à transformação. E também à continuidade, à permanência, à tradição, justamente porque essas “coisas” não devem simplesmente ser julgadas como erradas, feias, más, “burguesas” ou “fascistas”. Não se trata de trocar uma moral por outra, uma regra por outra, Deus pelo Diabo, o Sim pelo Não. Trata-se de poder ser outro de si mesmo.

A polícia anarquista pode até crucificar deus ou renunciar o demônio, mas não mata o policial que existe dentro dela mesma. The cop inside... que está muito mais para Judge Dredd: vigia, fiscaliza, acusa, julga e executa.

Se você quer fazer justiça com as próprias mãos, julgue primeiro o juiz interior.

Ou não faça nada, talvez seja melhor! Faço aqui um pedido encarecido aos vigilantes de plantão, miniaturas encasteladas na guarita de nossas certezas mais certas: tirem um cochilo, aproveitem o direito à preguiça, ao erro, à incoerência. Desliguem o alarme, o radar fotográfico, a câmera de supervisão. Antes que seja inventada a corregedoria anarquista.



Uma palavrinha final sobre a “sociedade burguesa”. Existencialistas, cristãos, socialistas, jovens indignados ou seja lá quem for costumam se opor ao chamado “ter para ser”, considerando-o o grande chamado burguês.

Discordo deles. O grande chamado burguês (ou existencialista, cristão etc.) não é “ter para ser”, mas sim o “ser”. “Seja você mesmo!”, esta é a palavra da ordem. Já que é assim, sou muito mais TER do que SER. Ter alguém ao invés de ser alguém.

O problema não é ter. Mas sim o que eu faço com o que eu tenho. Ou com o que você tem.

 


Escrito por Guilherme L J Falleiros às 12h24
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