Ouvindo a conversa dos outros (I de II)
Tenho vivido, de vez em quando, com o povo Xavante – “indígenas” habitantes do serrado já há quase dois séculos na área do Estado do Mato Grosso, e há pouco menos tempo que isso sujeitados às leis brasileiras, ao confinamento territorial e à mudança drástica dos meios por onde circulam depois da chegada violenta das fazendas, do agronegócio e das cidades.
Um dos muitos fatos que me chamaram atenção morando entre eles foi sua capacidade de falar e ouvir. Uma vez percebi um casal “discutindo” à noite, em sua língua, por horas a fio, através das paredes de palha de sua casa. Um deles falava longamente, sem interrupção do outro, muito mesmo... Quando parava era a vez do outro, que também não media palavras. Sempre calmamente, em nenhum momento alguém dava um grito ou emitia um tom rude. Noutro dia, um jovem que morava na casa deles me disse que falavam daquele jeito “para não brigar”. Noutra feita uma mulher chegou de carro à noite na aldeia, atrás de seu marido que estava prestes a se casar com outra no dia seguinte (entre os Xavante é possível o homem ter mais de uma esposa e a fidelidade sexual de ambos os sexos não é restrita como na “sociedade burguesa”). Muita gente se movimentava para cima e para baixo ou ia para perto de onde vinha o burburinho e o pai do noivo fez até um choro cerimonial. Mas a “briga” que aconteceu não passou de uma longa conversa... A irmã do noivo falando com a primeira mulher, e vice-versa, sempre em tom comedido, sem estridência, sobre o modo de vida deles.
Os Xavante consideram a palavra muito poderosa. Um de seus mitos cosmogônicos conta a história de dois adolescentes e companheiros (que se chamam mutuamente de “meu outro”) que às vezes se afastavam do coletivo para pregar peças e “inventar” espécies vegetais e animais, transformando-se nelas. Os dois se tratavam com respeito, um esperando a sugestão do outro para o que fazer: “meu outro, o que vamos fazer agora?”, – “diga você, meu outro, o que vamos fazer?”, “vamos fazer a onça!”, e os dois se transformavam na onça, criando-a e assombrando a todos. Depois de muitas invenções/transformações dessas, o coletivo ficou cansado e assustado com o poder deles e os mataram. Mas isso não colocou fim à vida deles, eles continuam por aí, e aparecem em sonhos, pois os sonhos são reais. Pensando um pouco como Mircea Eliade, o rito de maturidade dos adolescentes Xavante pode ser encarado como uma morte ritual que remete a este mito, na qual espera-se que passem a noite dentro d'água para amolecer os lóbulos, talvez “desmaiem” (que em Xavante quer dizer “morram”) ou simplesmente sofram calados a perfuração da orelha, a colocação dos brincos que fazem deles homens. Pierre Clastres diz que é assim que várias “sociedades” imprimem no corpo de seus membros a memória de seu pertencimento. No caso Xavante, o silêncio tem uma importância gritante. Podemos contrapô-lo ao poder da palavra, sempre latente e à espreita, daquela dupla mítica que inventava animais e plantas. Pois esse ritual parece sinalizar, com brincos nas orelhas, que para que a palavra não se torne perigosa demais é necessário, primeiro, aprender a ouvir o que vem do coletivo. E ouvir é uma das coisas que os adolescentes Xavante mais fazem durante os anos de sua formação. Presenciei isso na “casa dos solteiros”, onde eles dormem e são constantemente visitados pelo grupo dos homens recém chegados à idade adulta (em Xavante se diz “pequenos adultos”, grupo no qual fui inserido) que os apadrinha e os ensina. Ouvir é tão importante que quem não fala direito ou não canta direito é chamado de “surdo”. Numa das aldeias em que fico há um telefone público e, como eu disse para eles que tinha tentado ligar mas não conseguido, o cacique me explicou que, por casa de relâmpagos, o telefone tinha ficado “surdo”...
Escrito por Guilherme L J Falleiros às 14h29
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Ouvindo a conversa dos outros (II de II)
Fala e audição são elementos-chave de suas reuniões noturnas, das quais os homens adultos participam. Elas começam lentamente, as pessoas conversando baixo e pouco, entre si, até que algum dos assuntos vai ganhando mais atenção de todos, ou até que quem fala tenha a intenção de ter mais atenção (muitas vezes se levantando), mas isso não impede que outros conversem paralelamente, nunca muito alto. Mesmo conversando, eles escutam o que os outros estão falando, têm uma boa audição periférica, uma boa percepção do meio através dos ouvidos – no escuro, sabem bem quem está falando, inclusive graças ao costume das pessoas se sentarem mais ou menos no mesmo lugar. Nunca presenciei um “bate-boca” mais intenso da forma como alguns dos primeiros antropólogos dos Xavante, como Maybury-Lewis, dizem que é: dois homens de metades opostas falando um de cara para o outro, simultaneamente, mas incorporando em cada uma de suas falas as palavras do outro. Estranho jogral, esse. Presenciei, contudo, situações parecidas e mais leves e, no geral, um dos lados – normalmente o cacique – incorporava em sua fala algo do que o outro dizia. Em seus discursos o cacique sempre incorpora os apartes alheios, que são emitidos aqui e ali. O cacique tem o dom da palavra, mas nunca é uma palavra de ordem ou uma voz de comando. É uma síntese do que ele escuta, uma síntese que ele é “obrigado” a fazer. Pierre Clastres é conhecido por enfatizar o poder, ou “contra-poder”, do cacique ameríndio na manutenção da unidade do coletivo. Maybury-Lewis dizia que o cacique Xavante (ou os caciques, pois às vezes uma aldeia tinha mais de um e, hoje, tem “vice-caciques”) mais parece um embaixador ou alguém que cuida de relações internacionais, que atua entre as metades e facções da aldeia (ou mesmo fora dela) em prol do bom relacionamento coletivo.
Os Xavante são um povo guerreiro. Estão sempre prontos a brigar por suas terras, a salvar um membro de seu coletivo da captura do Estado ou de outros coletivos, a caçar, a ir a fóruns públicos munidos de palavras afiadas e pintados para a guerra. Mas esse poder guerreiro depende de outro poder, pacificador, de manutenção do bom relacionamento interno – pois guerreiros também podem guerrear entre si e uma briga pode ter conseqüências graves, levando grandes frações da aldeia à “guerra civil”, à separação, ao enfraquecimento. Para evitá-las os Xavante têm vários meios: amigos formalizados de metades e idades diferentes (que, como aquela dupla mítica, chamam-se de “meu outro”); grupos de idades diferentes que rivalizam entre si ludicamente, entrecortando as rivalidades familiares e possibilitando diferentes alianças; parentes afins, aliados através do casamento etc. Um Xavante de verdade, dizem eles, não deve falar mal dos outros, de seus “outros”, de seus afins etc., pois sabe que a palavra é poderosa. Dizem que um Xavante de verdade precisa saber acolher, pacificar. Pois para os Xavante a paz tem seu valor e a palavra também. Se a palavra tem o poder de transformar o mundo e de gerar a guerra, também tem o de manter a paz.
P.S.: O primeiro título deste texto era "Outros ouvidos, outras palavras", mas o alterei com base num comentário bem humorado que uma amiga virtual apinajé fez depois de lê-lo.
Escrito por Guilherme L J Falleiros às 14h26
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