O Inconsciente Corpóreo da Cidade
Existe um lado inconsciente da vida na cidade, um inconsciente concreto, encorporado, corporal, corpóreo, que é o dos quintais. É visto por cima, é visto pelas janelas dos fundos, sempre parcial e inacessível à experimentação do corpo todo do "cidadão", mas é parte constitutiva do corpo do "cidadão" e do corpo da cidade, e assombra seus espíritos.
Não que cada um não tenha acesso a seu próprio quintal (quando o possui), mas não tem acesso (permitido) aos outros quintais; quando os vê não os experimenta plenamente. Olhar pela janela dos fundos para o quebra-cabeça de quintais que se consegue avistar dá ao mesmo tempo uma sensação de possibilidades em potencial e uma sensação de impotência. A propriedade faz isso.
Não é idêntica, mas é parecida a sensação de ver por cima dos muros da cidade quando se está em pé dentro de um ônibus. Tantos corpos ali dentro, apertados, e lá fora - ou lá dentro, do outro lado dos muros - tanto espaço a ser rompido e experimentado.
Isso faz admirar os moleques puladores de muro, a infância perdida do acesso aos quintais alheios. Só as crianças podem violar esses muros por serem cafés-com-leite civis, inimputáveis? Pelo menos ainda nesse aspecto elas podem ser... Mas os muros só crescem em volta delas, quase já não as vemos à solta nas partes mais "civilizadas" da cidade, a não ser devidamente selvagerizadas pelo senso dominante.
De certo modo, hoje, os pixadores representam um prolongamento (impróprio) dessa infância, uma recusa de seu recalque. O pixador sublima um desejo de todo cidadão através de sua "arte". Mas não só sublima como também realiza esse desejo. Com isso causa um misto de admiração e ódio.
E tal desejo não é aquele desejo conservador, aquele da mãe superprotetora, do pai que devora os seus rebentos, do édipo ou da eléctra. Contra o freudismo, esse desejo proibido de pular muros e quintais é outro: é o desejo do estranho, do diferente, do outro.
Escrito por Guilherme L J Falleiros às 17h24
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