A Cidade do Anti-Individualista Solitário

14/05/2008

O Inconsciente Corpóreo da Cidade

Existe um lado inconsciente da vida na cidade, um inconsciente concreto, encorporado, corporal, corpóreo, que é o dos quintais.
É visto por cima, é visto pelas janelas dos fundos, sempre parcial e inacessível à experimentação do corpo todo do "cidadão", mas é parte constitutiva do corpo do "cidadão" e do corpo da cidade, e assombra seus espíritos.

Não que cada um não tenha acesso a seu próprio quintal (quando o possui), mas não tem acesso (permitido) aos outros quintais; quando os vê não os experimenta plenamente. Olhar pela janela dos fundos para o quebra-cabeça de quintais que se consegue avistar dá ao mesmo tempo uma sensação de possibilidades em potencial e uma sensação de impotência. A propriedade faz isso.

Não é idêntica, mas é parecida a sensação de ver por cima dos muros da cidade quando se está em pé dentro de um ônibus. Tantos corpos ali dentro, apertados, e lá fora - ou lá dentro, do outro lado dos muros - tanto espaço a ser rompido e experimentado.

Isso faz admirar os moleques puladores de muro, a infância perdida do acesso aos quintais alheios. Só as crianças podem violar esses muros por serem cafés-com-leite civis, inimputáveis? Pelo menos ainda nesse aspecto elas podem ser... Mas os muros só crescem em volta delas, quase já não as vemos à solta nas partes mais "civilizadas" da cidade, a não ser devidamente selvagerizadas pelo senso dominante.

De certo modo, hoje, os pixadores representam um prolongamento (impróprio) dessa infância, uma recusa de seu recalque. O pixador sublima um desejo de todo cidadão através de sua "arte". Mas não só sublima como também realiza esse desejo. Com isso causa um misto de admiração e ódio.

E tal desejo não é aquele desejo conservador, aquele da mãe superprotetora, do pai que devora os seus rebentos, do édipo ou da eléctra. Contra o freudismo, esse desejo proibido de pular muros e quintais é outro: é o desejo do estranho, do diferente, do outro.
Escrito por Guilherme L J Falleiros às 17h24
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02/04/2008

Dádiva, simbolismo, magia e anarquia


Esse texto é uma apresentação resumida de como encarar o simbolismo alternativamente às teorias da representação com as quais estamos acostumados no pensamento cartesiano. A produção de um texto mais extenso e mais explicativo está em andamento. Caso queira saber mais a respeito, entre em contato !

Estamos acostumados a encarar o simbolismo como uma representação. Algo separado da realidade, transcendente, anti-natural. As teorias dominantes e mais difundidas dizem que os símbolos se formam através de relações da “mente” com o “mundo”, duas entidades separadas e mediadas pelos sentidos. Assim, existe uma “realidade lá fora”, “autônoma”, “objetiva”, e uma representação “subjetiva” dessa realidade. A representação e a realidade nunca são idênticas e desse desencontro brotariam grande parte das angústias modernas. Os céticos diriam ainda que essa realidade lá fora nem mesmo existe, só restando a ilusão. Ainda assim, não eliminam a dicotomia entre "subjetivo" e "objetivo", apenas ficam com um lado dela.

Contudo, a partir de teorias da dádiva de autores clássicos como Marcel Mauss e outros mais atuais como Alain Caillé, pode se pensar o simbolismo não como algo separado do mundo, mas misturado ao mundo. Como presente em vez de representante. A dádiva – presente, em duplo sentido – mistura as pessoas e as coisas, mistura as almas, os elementos, atualizando vínculos entre eles.
Não é mera identidade. Mas também não é uma relação de hierarquia e desigualdade. É uma mistura, na qual diferenças estão presentes umas nas outras.

Essa relação de co-extensão e mistura entre espíritos, mentes, corpos, coisas, pessoas, é também associada ao que costumamos chamar, às vezes pejorativamente, de magia.
Por exemplo, a palavra simpatia, em Português, é associada tanto a uma idéia de magia quanto a uma idéia de empatia interpessoal, uma relação de compatibilidade entre pessoas, de aceitação – mas não necessariamente identidade. Quando carregamos algum objeto “simpático”, um amuleto etc., afim de cumprir uma simpatia, acreditamos que ele está dotado de forças de agentes pessoais (muitas vezes fabulosos) presentes no mundo. Esses agentes nem sempre são apenas “deuses”. A arruda, por exemplo, na sabedoria popular brasileira (e de outras partes), é uma planta dotada de forte poder pessoal.
Magia é, de certa forma, transformar o mundo conforme a vontade. Também é considerar que palavras, rituais, objetos, têm poder direto de transformação do mundo. O que isso tem a ver com simbolismo? Se considerarmos o simbolismo no sentido de mistura e presente, muitas vezes experimentamos efeitos reais (uma cura, um acontecimento improvável, o crescimento mais bonito de uma planta, a capacidade de superar desafios de uma criança ao experimentar o mundo) de transformação no mundo por aquilo que estamos acostumados – na razão cartesiana – a chamar de “sugestão”. Uma espécie de poder “psicológico” do uso de palavras, gestos, rituais, objetos, símbolos como agentes de poder ou elementos que possibilitam mais poder. Mas algo que não é somente “psicológico”, é um diálogo com as outras realidades, convencendo-as e transformando-as, transformando-nos.
Nesse sentido, simbolismo não é somente a linguagem oral e escrita, não é somente o discurso planejado, ou o “símbolo” separado das imagens e dos indícios.
Como num jogo – por exemplo, o dos cãezinhos que brincam de cabo-de-guerra ao puxar um pedaço de pano – o símbolo presente é tanto um indício de uma relação, uma figura dessa relação e também de outras relações. Como o pano usado pela brincadeira dos cachorros (mesmo os selvagens), ele indica uma amizade entre esses animais tanto quanto uma outra ação supostamente utilitária (caça?) que, no entanto, não precisa acontecer para dar sentido àquele momento. Ele tem valor por si mesmo: o jogo não necessariamente tem outra função além daquela que vemos ali, presente.

É nesse sentido que essa noção de dádiva como símbolo pode ser valiosa para a anarquia, contrariando as noções dominantes ligadas às formas de representação política burguesas.
O agente político “presente” está agindo por si mesmo, e não por outros, entretanto também age vinculado a outros e suas intenções são uma mistura das intenções dos outros.
Um membro de um coletivo libertário, por exemplo, que vai para um outro meio, com outras pessoas, carrega com ele um pouco (que pode ser muito!) do que as pessoas de seu coletivo original fazem, dizem e desejam. De maneira alguma ele representa todas essas pessoas, mas sim torna presente a si mesmo e um pouco delas.

Escrito por Guilherme L J Falleiros às 11h59
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06/02/2008

Tente Mudar o Passado (parte I de IV)

Existe um disco de 1985 da banda Cólera, bastante conhecido entre os punks, chamado “Tente Mudar o Amanhã”. Um título que soa como uma proposta romântica, revolucionária, adolescente... Ao mesmo tempo, uma proposta que antevê uma catástrofe, o colapso está próximo – e temos de fazer alguma coisa a respeito.

Para além do romantismo, já foi bem dito que, se você quer mudar o amanhã, é preciso mudar o presente antes. Não adianta ficar esperando a “revolução” para, aí sim, transformar suas práticas de vida. Transformar as práticas é transformá-las agora. Ainda assim, em meio a essa concepção pragmática e bastante vívida, muitos se orientam por uma visão catastrófica do progresso... uma linha reta evolutiva (ainda que seja apenas da “nossa civilização”)  é aceita como “dada” e, por causa dela, a vida está à beira do colapso.

O problema é que, ao atacar o progressismo desenvolvimentista, alguns críticos acabam “comprando” a linearidade histórica presente na própria idéia de progresso que querem negar. Antepor o primitivo ao civilizado, o original ao transviado, o “bom selvagem” ao cidadão burguês: para criticar o “presente”, baseiam-se na própria idéia de passado fixo e natural, constituída a serviço desse “presente”. Um “presente” que é, na verdade, ausente, já que nele estamos sempre voltados para o futuro, um presente alienado que transcende o nosso alcance.


Escrito por Guilherme L J Falleiros às 18h14
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Tente Mudar o Passado (parte II de IV)

Gosto de repetir que todo dado é dado por alguém, portanto também é mudado por alguém.

Toda pesquisa científica, e nisso se enquadra a pesquisa histórica, é ao mesmo tempo uma descoberta e uma invenção (coisa que já foi dita pelo antropólogo da ciência Bruno Latour). Novos dados são achados, vindos de outros que os deixaram lá, e nesse encontro são também inventados por outros que os acham.

Ou, em outras palavras, tudo que alguém dá a você se transforma com você por vários motivos: porque aquilo se torna parte de você e você torna-se parte daquilo; porque você também está em relação com outras pessoas diferentes daquela que lhe deu aquilo; porque você tem liberdade de desviar; e porque você não precisa pagar sua “dívida” no mesmo preço e na mesma hora.

Uma tradição é passada de pessoas para outras, mas essas pessoas não necessariamente a reproduzem da mesma forma que era antes e, ao mudá-la, afetam também as próprias pessoas que as passaram e com quem estariam em dívida. Não uma dívida financeira, mas uma gratidão, uma dívida de mão dupla e nunca inteiramente “paga”, pois as “pessoas do passado” também podem ser gratas às do “presente” por aceitarem algo de seu modo de vida.

Mesmo que essas “pessoas do passado” estejam “mortas” no sentido “materialista” e cartesiano do termo, seus espíritos podem mudar, suas histórias podem mudar, seu próprio corpo pode mudar de maneiras variadas. Alguns povos canibais da América do Sul, até bem pouco tempo atrás, comiam seus parentes falecidos, tornando-os, com isso, parte de si mesmos. Outros por aí gostam de embalsamar e enrolar seus mortos em trapos especiais, transformando-os em múmias.

Enfim, ao mudar o presente, muda-se também o passado. O presente tem duplo ou triplo sentido: o que está aí agora, nesse exato momento; o que foi dado por alguém; a presença de alguém do passado no presente: porque todo presente carrega algo essencial ou substancial daquele que deu, mistura as pessoas, é uma presença mista de quem estaria supostamente ausente.


Escrito por Guilherme L J Falleiros às 18h13
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Tente Mudar o Passado (parte III de IV)

Se a história é inventada ao mesmo tempo que é transmitida e descoberta, a perspectiva científica sobre isso, contudo, nem sempre aceita que “todo dado é dado por alguém”. Ainda perdura, mesmo em correntes críticas das ciências, a noção de que existe um “mundo real”, “lá fora”, uma realidade “nua e crua”, separada do “mundo ideal”, dos conceitos, dos símbolos, das idéias. A mente está, ao menos desde Descartes, separada do mundo*.

_ Veja bem, não quero dizer contra isso que “as idéias” são a única realidade ou que “a realidade não existe”: pelo contrário, quero dizer, contra o cartesianismo, que a mente e o mundo se misturam. Como diria Gregory Bateson, a mente não é limitada pela pele.

Entretanto, estamos acostumados a aprender na maioria das escolas que a ciência da história descobre dados brutos, que não são dados por alguém mas por coisas, realidades fixas no passado, simplesmente reveladas porque “já estavam lá”.

Assim, mitifica-se a ciência como uma “dona da verdade”, como a única capaz de descobrir “a vida como ela é”**. E a História trataria do passado fixo, “como ele foi”.

Entretanto, se todo dado é dado por alguém, o conhecimento não é neutro nem totalmente desinteressado. É comum buscarmos no passado legitimidade política para o presente. Nesse processo, a fim de demonstrar quem passou o que para quem e – assim, se se tem ou não posse legítima do que foi passado – podem surgir conflitos já que cada um transforma o passado a seu modo. Muitos mitos e histórias são usados nesse sentido. Assim como a história oral de habitantes de uma região de um antigo quilombo pode ser usada para legitimar a posse da terra por eles, da mesma forma mitos da “Cobra Grande” na bacia amazônica posicionam os povos que os contam numa cadeia de poderes políticos conforme sua posição no rio, ou mesmo a história dos “Pais Fundadores” e da independência dos Estados Unidos da América busca legitimar esse país como um defensor da democracia com direitos expansionistas.

 É comum também que os mitos falem de coisas que não acontecem mais, mas cujos efeitos estão perenes e que podem voltar a acontecer. Por exemplo, o mito de Adão e Eva, que fala que vivíamos num paraíso e, por pecado, fomos postos a trabalhar – mas a salvação pode acontecer, basta trabalhar muito... Ou o mito das “Três Raças” no Brasil, que mostra uma origem conflituosa que juntou “brancos”, “negros” e “índios” os quais, finalmente, vivem em democracia – mas o Estado é necessário, sempre alerta, para evitar a volta das injustiças do “passado fixo” e “distante”... Os Xavante, povo que vive no meio do Brasil, têm um mito sobre dois adolescentes criadores que se transformavam em animais e inventaram várias das espécies de animais e plantas conhecidas; por serem tão mutantes e assustarem a todos, os dois foram mortos – mas nada garante que não possam voltar e vários rituais realizam, no presente, sua vida passada.

O problema não é essa busca de legitimação presente em histórias e mitos e mesmo suas contradições poderem parecer injustas e falsificadoras (como o mito das “Três Raças” e outros). O problema é quando o passado é transformado em algo absoluto e imutável e, pior ainda, universal – já que a realidade está separada, alienada, está “lá fora”, apenas esperando por ser descoberta. Nesse sentido não há mera disputa por legitimidade ou pela “história verdadeira”, mas sim a invenção de origens inquestionáveis que justificam tudo. Em vez da variedade de histórias, busca-se na ciência*** uma história absoluta, que garanta a supremacia de um argumento sobre outro. Em vez de histórias que vão e voltam no tempo, apenas uma história linear.


Escrito por Guilherme L J Falleiros às 18h12
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Tente Mudar o Passado (parte IV de IV)

É duro perceber que algumas propostas políticas de aspiração libertária tenham de apelar para essa história fixa e linear para justificar de modo absoluto suas posições. A partir de uma perspectiva evolucionista da “humanidade”, buscam o fundamento de suas críticas numa origem remota e “natural”, separado da “cultura” assim como o “mundo” cartesiano está separado da “mente”.

Criticando a razão, Rousseau já se apoiara numa concepção naturalista do “bom selvagem”****. Como Rousseau, e algumas vezes se apoiando num racionalismo que o autor talvez rechaçaria, outros vêm defender que “no passado vivíamos num matriarcado – e isso justifica que as mulheres tomem o poder hoje”, “no passado éramos caçadores e coletores – e isso justifica que não trabalhemos” (ou mesmo “no passado nosso corpo não foi feito para caçar – e isso justifica que não comamos carne”), “no passado tais instrumentos eram usados para determinados fins, portanto podem ser usados hoje”... Cada um defendendo sua verdade única com base numa origem de um tempo linear, apontando para modos de vida “primitivos”. O que muitas vezes se contradiz porque os modos de vida supostamente “primitivos” podem ser encontrados no presente e suas práticas “do passado” estão aí, para quem quiser ir atrás. Transforma-se o vizinho em “antepassado”.

Não tenho nada contra aprender com nossos vizinhos ou com nossos antepassados! E também defendo a liberdade das mulheres, dos animais ou de todos perante a acumulação de trabalho alienado. O problema é basear essa defesa num sistema que concebe a história como linear e a cultura como separada da natureza, transformando os dados em “coisas” inanimadas, coisas que não mudam, o que contraria a própria liberdade que se quer atingir.

 

* Se é que essa “separação”, esse dado, não lhe foi passado pelos “gregos antigos”, esses seres mitológicos da filosofia pelos quais tudo já foi dito...

** A despeito de Nelson Rodrigues ter mostrado “a vida como ela é” no teatro e na literatura...

*** Ou em religiões monopolistas e intolerantes... A separação entre espírito e mundo, se foi inventada antes de Descartes e dos filósofos gregos, só pode ter sido criada por Deus...

**** E, como ele, teóricos “mais” burgueses defenderam a história do Estado contra o “mau selvagem”...


Escrito por Guilherme L J Falleiros às 18h09
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14/01/2008

Um jogo não-absolvente: Notas rápidas sobre o freeganismo



“Freegan”: à primeira vista uma palavra moderninha, com cara de modismo importado (tipo “punk”), de comportamento jovem rebelde... Há uns anos a noção de “freegan” que eu tinha era meio deturpada, diziam que a atividade “política” do “freegan” era expropriar pequenas mercadorias de lojas. Faz algum tempo conheci o “rolê freegan” numa proto-etnografia, exposta aqui algumas páginas atrás e, com outras pessoas, passei a fazê-lo “de vez em quando”. Será que “virei nativo”, “virei freegan” (sic)?


Vi que “freeganismo” era um nome para práticas que a gente (provavelmente você também) já tinha e que, formalmente, apresentam-se como um conjunto de estratégias de coleta e consumo sem uso de dinheiro, envolvendo reutilização de objetos descartados, reaproveitamento de alimento, colheita direta de vegetais que nascem por aí – e só não é “caça e coleta” porque surgiu em meio aos “vegans”, que renegam a predação de animais, de modo que muitos “freegans” (sic!) não comem carne.



Hoje a imprensa brasileira parece ter descoberto o freeganismo por algum motivo – talvez por sensacionalismo (“freegans” gostam de “mergulhar no lixo”, “existe almoço grátis, mas é um lixo”...), talvez porque várias práticas que lhe tomam o nome têm se disseminado, ainda que marginalmente, diante dos alarmes atuais sobre o meio ambiente, a reciclagem ou o aquecimento global.


Depois do punk, do straight edge, do vegan, o freegan parece ser uma “nova onda”, uma nova notícia (perdão pelo pleonasmo), uma nova identidade nesse mar de pós-modernidade fluida.



Do meu ponto de vista, porém, poderia ser outra coisa. Ou melhor, ter outra coisa.



Já naquele primeiro rolê freegan de 2006 ressaltei suas possíveis associações com o “pensamento selvagem” e a bricolagem: uma lógica ligada a um vasto conhecimento do concreto e à transformação da necessidade pela relação. O que você encontra por aí pode parecer inútil por um lado mas pode ser útil por outro, criando um novo desejo, reconfigurando suas idéias e ações.


Mas notei sobretudo na fala de meu amigo da Erva Daninha o caráter lúdico dessa atividade. Tentar seguir estratégias freegans é como um jogo...


Algo que não necessariamente se faz sempre, porém algo absorvente. Um jogo cujo campo é a selva urbana.


Um jogo sem regras muito rígidas, portanto mais próximo do que em português chamamos de “brincadeira”, sem ligas mundiais que o fiscalizem, mas dotado de um interessante sistema de vitória: você ganha pontos de satisfação ao encontrar um badulaque curioso no lixo, uma árvore frutífera diferente na sua vizinhança, uma erva medicinal no terreno baldio ao lado, se adaptar o seu dia-a-dia à bicicleta, se conseguir um lugar para morar sem pagar... Ninguém vai lhe denunciar à “liga mundial dos freegans” se vir você entrando num carro ou num restaurante da moda, comprando um saco de soja orgânica no supermercado ou pagando as contas do mês na lotérica. Se eu disser que é você que vai se sentir bem fazendo isso, corro o risco de esbarrar na lógica das doutrinas cristãs de ascetismo individual (igualando um pouco o freeganismo ao jogo de Paciência) – o problema é que o freeganismo não vai lhe salvar de nada, não vai lhe absolver do aquecimento global, afinal suas estratégias são muito mais parasitárias do “sistema capitalista” do que “revolucionárias”.


Por outro lado, são práticas bastante sustentáveis pois abertas ao inesperado, ao que aparecer pela frente. Não é tão complicado assim trocar a coleta de frutos abandonados nas feiras livres, por exemplo, pela coleta de frutos diretamente do pé. O que também faz dessas práticas um jogo combinável com outros jogos, como o da autogestão e da permacultura, por exemplo.


E, pelo terceiro lado, é um jogo gratuito, que valoriza a solidariedade não-mercantil e, se não vai “fazer a revolução”, pode muito bem prosseguir existindo “depois” dela.



Eu poderia também ter dito que era um jogo psicogeográfico que deu certo porque nele se trata de ir além de uma relação emocional com o meio como paisagem, aproximando-se um pouco mais e tomando para si o próprio meio. Porque é, portanto, um jogo de TER, não um jogo de SER.


As estratégias freegans não são modos de SER alguém ou alguma coisa, mas modos de TER alguma coisa – e, por que não, alguém...


Elas partem do princípio direto do TER que é a AQUISIÇÃO, se baseiam no próprio processo de aquisição de coisas. Procurar, encontrar e adquirir coisas gratuitamente, basicamente através da coleta.


Nelas, ainda, as coisas e as pessoas parecem um tanto separadas, afinal não se coletam pessoas, nem as coisas coletadas são tratadas como pessoas – a não ser por crianças mágicas , velhos mágicos ou por aqueles que conhecem a vida secreta das plantas... Entretanto, também se ganham pessoas pela amizade, pela solidariedade e pela redistribuição de todas essas coisas gratuitas.


E, ao adquirir coisas inesperadas, ao se abrir para o que vem de fora, ao estar atento aos detalhes e às possibilidades, também há uma mudança da própria pessoa, uma mudança de seus desejos, uma mudança da própria forma como encara o desejo. Uma positivação do TER PARA SER.



Infelizmente, entretanto, as estratégias freegans falham no seu modo de DESPERDIÇAR. Aproveitando o que é desperdiçado pelos outros acaba-se criando uma recusa do desperdício que pode levar a um processo de ACUMULAÇÃO – não raro tornando todo o espaço livre disponível para as pessoas num espaço amontoado de coisas, tranqueiras, algo que seria “inútil hoje mas útil amanhã”... Isso as estratégias freegans precisam aprender a deixar de lado, a deixar para o Capital o que é dele (a acumulação...).


É preciso aprender a perder.


Escrito por Guilherme L J Falleiros às 01h42
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28/04/2007

Faça o mal, não importa a qual? (I de III)


É muito comum entre os libertários associar o comportamento autoritário à prática do mal, à violência e à morte.



Como vovô Nietzsche já dizia, tendemos a associar o bem a nós mesmos e o mal a nossos inimigos. Se bem que é a moral de rebanho (e de escravos...) que associa a violência e a morte ao mal. Uma moral livre, segundo o "bom" (?!) velhinho, seria aquela que se imporia pela afirmação de si, afirmação muitas vezes violenta e matadora.



A solução libertária contra a moral de rebanho, então, poderia ser "fazer o mal a meus inimigos".


Livre da passividade e da não-violência, o libertário poderia lutar contra seus opressores.


Mas somente contra os opressores? Seriam apenas eles seus inimigos?



Afinal, quando se luta contra alguém que agrediu "primeiro", a luta é apenas uma reação. Uma negação. Não uma afirmação de si...



Mas seria mesmo a moral libertária reativa e, por outro lado, a moral autoritária afirmativa?



Escrito por Guilherme L J Falleiros às 15h32
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Faça o mal, não importa a qual? (II de III)


Duas campanhas veladas ou desveladas vem rondando a opinião pública brasileira nos últimos tempos: uma em defesa da pena de morte, outra em defesa do aborto.



Também é muito comum associarmos uma postura libertária à defesa do aborto mas contra a pena de morte, e uma postura autoritária à defesa da pena de morte mas contra o aborto.



Quais seriam as justificativas de cada uma delas?



Penso que, quanto ao aborto, a libertária defende que a mãe não deve ser obrigada a ter um filho que não deseja ter, e que isso seria muito pior para ela e para a criança do que a morte do embrião (no geral, ninguém defende a morte do feto, a não ser as campanhas difamatórias do aborto). Uma criança indesejada pela mãe ou pela família seria um adulto–problema a mais no mundo.


Quanto à pena de morte, a libertária defende que o Estado (ou qualquer pessoa, em alguns casos – em outros vale a regra da “reação”, da vingança) não tem o direito de tirar a vida de ninguém somente porque essa pessoa cometeu um crime. Existe um monte de injustiças envolto no processo penal e mesmo na incidência criminal – seria impossível reparar uma pena de morte mal-aplicada.


Veja que as duas justificativas não coincidem por serem contra ou à favor da vida. Na verdade, elas coincidem em que ninguém deve ser sobre-penalizado pelos erros que comete (ou que alguém cometeu...). A mãe não deve ser penalizada com um filho indesejado, o réu não deve ser penalizado com uma pena sem volta.



Já a autoritária, a meu ver, é contra o aborto por ser a morte de uma “pessoa” inocente. É fundamental, para essa posição, que o embrião já seja considerado como “pessoa” desde o começo (estranhamente, ninguém costuma considerar nenhum outro animal no mesmo estado corporal e de consciência que um embrião como “pessoa”...), pois a intenção é evitar que a mãe possa fazer o aborto a qualquer tempo, para que ela arque invariavelmente com as “conseqüências” do ato sexual (consentido ou não – para alguns, mesmo o ato não consentido projeta uma culpa sobre a mãe...).


Entretanto, não haveria nenhum problema em matar pessoas adultas (a palavra “adultas” é importante porque, sem ela, até mesmo um embrião “pessoa” poderia ser condenado à pena de morte... – a redução da maioridade penal precisa ter limite, mesmo para um autoritário) desde que essas pessoas sejam culpadas de algum crime.


Longe de ser “contra” ou “à favor” da vida, o que parece coincidir nas justificativas que suponho ser autoritárias é a questão da culpa e a de que todos que “cometem” erros devem pagar por eles severamente (com a vida, seja morrendo, seja dando a vida a um filho indesejado).



Ou seja, para os autoritários, toda ação livre que esteja envolvida em danos a outrem deve ser atacada por uma reação forte, tão forte que iniba outras ações do gênero (tão forte que envolva o pagamento com a vida).


Por outro lado, todo inocente merece viver... (a visão de um rebanho de cordeiros substitui-se, nesse caso, pela de um rebanho de escravos, já que escravos normalmente não servem para o abate.)



De modo que, agora, para o bem de Nietzsche e dos libertários, fica fácil chamar os autoritários de “reativos” e os libertários de “afirmativos”. Ou não?


Escrito por Guilherme L J Falleiros às 15h28
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Faça o mal, não importa a qual? (III de III)



Então, em meio a uma enxurrada de conclusões perturbadoras, eu me pergunto:


Defender que seres inocentes (por exemplo, os animais) não sejam mortos por outros é uma postura libertária ou autoritária?


É libertário reagir somente se for atacado, ou atacar mesmo que o inimigo seja “inocente” e “sem culpa”?


Fazer o mal só a quem faz mal é autoritário?


Que tal fazer o mal a quem faz bem?


Ou fazer o bem a quem faz mal?



Sem resposta certa para essas perguntas, retomo a questão da vingança.


A penalização autoritária não parece ser uma simples vingança. Afinal, a justificativa da justiça estatal, de ordem hobbesiana, é justamente acabar com o ciclo de vinganças afirmando uma ordem que venha de cima.


Mas, não sendo necessariamente “autoritária”, a vingança continua sendo, ao menos conforme a lógica “moderna” de causa e efeito, de tempo linear e cumulativo, uma reação, e não uma afirmação de si.









P.S.: Vale lembrar que Nietzsche nunca foi anarquista, muito pelo contrário. De modo que a tentativa de conciliação entre seu pensamento e as práticas libertárias seria contra a própria vontade (de potência?) do autor... Mas esse meu pensamento, se não é só meu, também não é só dele (muito pelo contrário!), e com ele mascaro outras dádivas filosóficas que recebi...


Escrito por Guilherme L J Falleiros às 15h21
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