A Cidade do Anti-Individualista Solitário

05/12/2014

Aproximação à hipótese de diálogo entre Pierre-Joseph Proudhon e Claude Lévi-Strauss

Apresento uma tentativa de introdução a uma hipótese teórica de uma pesquisa pessoal maior sobre o diálogo entre formas políticas ameríndias e anarquistas.

Vaqueiro, tipógrafo, comerciário e bolsista acadêmico francês de meados do século XIX, Pierre-Joseph Proudhon foi o primeiro autor e ativista declaradamente anarquista. Teve sua obra recuperada por Célestin Bouglé no início do século XX, influenciando a Escola Sociológica Francesa e desenvolvendo uma corrente sociológica própria cujas produções foram parcamente traduzidas para o português – o que tem sido paulatinamente superado com a proximidade dos 150 anos de sua morte em 2015.

 Seu pensamento, nem kantiano, nem hegeliano, baseia-se numa dialética serial sem síntese. Séries de elementos são concebidas entre polos opostos que jamais se anulam, a não ser transformados em novas séries. Numa de suas obras derradeiras, Do Princípio Federativo, aborda a série política a partir dos polos da Liberdade e da Autoridade, o “dualismo político”. Apresenta uma história não linear, feita de alternâncias. Sucessão de massas, classes e revoluções não realizam plenamente a Liberdade justamente por tentarem, sem sucesso, eliminarem a Autoridade. “Vermelhos” e “azuis” (direita e esquerda) invertem-se paradoxalmente, elites valem-se da democracia para governar e a multidão tende a apoiar ditaduras.

Para Proudhon, a capacidade política das classes trabalhadoras não está nas revoluções. Ela está no trabalho enquanto habilidade técnica e produtiva da “força coletiva” e também na organização política: o federalismo. Tratou o federalismo obreiro do século XIX como prefiguração do modo de vida socialista anti-capitalista e anti-estatal: o “federalismo agro-industrial”. Tal seria uma maneira produtiva e pacífica de por em prática o agonismo característico da guerra. A federação se organiza de modo que a Liberdade seja maior que a Autoridade impossível de ser eliminada. Pela organização local de pequenos coletivos, cujos delegados seriam porta-vozes, constituem-se federações a partir da pulverização dos cargos e distribuição do poder de execução. As partes, sejam membros dos coletivos ou coletivos membros da federação, guardam para si maior liberdade do que concedem, obrigam-se reciprocamente mas podem romper o vínculo quando desejarem, minimizando a tendência à centralização.

Não tão longe da Europa de Proudhon, uma Antropologia lévi-straussiana baseada no diálogo, como disse Pierre Clastres, encontra nos povos ameríndios certas filosofias, mitologias e formas de organização coletiva que operam como um “dualismo em perpétuo desequilíbrio feito política”, segundo Beatriz Perrone-Moisés. Num movimento temporal pendular, tanto sazonal quanto histórico, apresentam-se formações políticas entre o “contra-Estado” e o “quase Estado”, como dizem Perrone-Moisés e Renato Sztutman. Coletivos constituídos ora por “chefes” que, para liderar, obrigam-se a dilapidar o poder através da generosidade, ora por uma multiplicidade de “cargos” e “donos” demais, além de sub-grupos de associação e pertencimento entre-cruzados. Por exemplo, entre os A’uwe-Xavante, há mais de duas divisões entre metades, classes de idade, linhas de parentesco e separações de gênero, além de vários encargos político-rituais - muitos são os “chefes” e “donos” de algo. Inversões entre diametralismo e concentrismo, entre centro e periferia, afetam as relações interiores e exteriores. Seu princípio federativo não se funda, como no ideal proudhoniano, somente nos frutos do trabalho, ainda que seja verdade em vários casos, como no intercâmbio de produtos especiais por “pães de sal” na Amazônia peruana de matriz aruaque e pano. Há também circuitos rituais, festivais e guerreiros que mobilizam o federativismo indígena. Lévi-Strauss nota a forma da guerra atenuada em festivais lúdicos na América do Norte, ao estudar a mitologia e o pensamento “selvagem”. O mesmo pode ser visto em festivais mortuários e competitivos com a luta huka-huka xinguana. Ou nas relações entre classes rituais trans-aldeãs a’uwe-xavantes, dirimindo o faccionalismo do parentesco através de corridas de tora, jogos esportivos e manifestações de canto e dança. Aliás, o próprio parentesco a’uwe-xavante revela elementos que, para Proudhon, seriam confederativos. Ao contrário do fundamento patriarcal e autoritário observados por ele, o parentesco a’uwe-xavante apresenta características libertárias: os laços não são só dados mas construídos também pela escolha pessoal, através da intensificação do convívio, da comensalidade e da adoção, de modo que uma pessoa possa paulatinamente desfiliar-se de sua comunidade e afiliar-se a outra.

Lévi-Strauss foi leitor de Proudhon e o mostra na conclusão de sua tese sobre estruturas elementares do parentesco (orientada por Bouglé...). Nas palavras do anarquista, Lévi-Strauss concebe o parentesco como forma de “reciprocidade”, situado entre os polos da “propriedade” e da “comunidade” – limites estéreis quando sozinhos, mas entre os quais se realizam uma série de maneiras de se relacionar. Trata-se da mesma dialética que Proudhon aplicaria à política. E que encontra algumas semelhanças naquela que Lévi-Strauss identificaria na filosofia mitológica das Américas – o dualismo em perpétuo desequilíbrio – que a etnologia política como a produzida no Centro de Estudos Ameríndios (USP) tem observado em confederações ameríndias.

Hoje indígenas são aclamados por alguns anarquistas, não sem equívocos, como no famoso anarco-funk em homenagem à Confederação dos Tamoio. Para além de concepções tradicionais anarquistas como a federação de indivídos do anarco-plataformismo ou a federação anarco-sintetista de grupos de ação diversa, anarquistas arriscam-se até mesmo no futebol, como na Copa Rebelde de Movimentos Sociais. Talvez pudessem se aproximar mais de concepções indígenas ampliando e diversificando suas alternativas históricas, rompendo com o fado unilinear e evolucionista – tão pouco proudhoniano, menos ainda lévi-straussiano – e encontrando nos indígenas muito mais do que “primitivos”.


Escrito por Punk Canibal às 11h44
[] [envie esta mensagem] []


25/08/2013

Passe livre é pouco, amor livre já!

(Publicado em Amores Livres)

 

Nos últimos meses de meados de 2013, o movimento pelo passe livre e a luta pela tarifa zero no transporte público brasileiro ganharam projeção mundial com protestos massivos e intensos em todo o país. Mas, como dizíamos, não eram apenas 20 centavos o nosso problema. A insatisfação política chegou a níveis extremos e as pautas de luta foram várias. Entre as tantas, poderia ser o amor livre uma delas?

A proposta do passe livre tem sido há anos defendida por movimentos sociais e mais marcadamente pelo MPL, Movimento Passe Livre, organização anti-hierárquica e em rede, com baixo vínculo institucional e poucas relações com partidos e governos, que pensa a tarifa zero como mecanismo libertário de locomoção urbana. Junto com a população, pessoas libertárias de todos os matizes serão beneficiadas pelo passe livre (e já são, como em Agudos, no interior de São Paulo). A estratégia para isso comporta uma série de desobediências civis (pular catraca), confrontos com o poder público e ações diretas na base do fazer-a-gente-mesmo, ainda que a intenção seja fazer com que o governo faça alguma coisa. Porque o passe livre é uma proposta que depende de conquistas junto ao poder público, através da iniciativa de governos municipais e leis nos diversos níveis que tornem o transporte coletivo gratuito para o povo. Ou seja, apesar de se organizar autonomamente, o MPL depende da heteronomia estatal para realizar seus fins: uma reforma na economia e na política públicas.

O que o amor livre pode ter a ver com isso, então?

Amor livre é o nome genérico que se costuma dar para diversas práticas de amor, relacionamento romântico ou sexual, envolvimento pessoal intenso e terno – ou fugaz porém respeitoso das subjetividades envolvidas –, casamento aberto e outros modos e maneiras que discordam da monogamia compulsória. Amar livremente é poder amar e deixar amar uma ou mais pessoas sem restrições impostas.

Curiosamente, como o passe livre, ainda que alheio às manifestações de massa, o tema do amor livre também tem chamado atenção no debate público atual nos últimos meses e anos, aparecendo até em programas de TV. Houve um crescimento de comunidades virtuais em redes sociais eletrônicas (como as dedicadas ao Poliamor e às Relações Livres, duas correntes distintas de relacionamentos não-monogâmicos), eventos sociais e festivos e o acaloramento dos debates sobre o tema em meios políticos radicais, gerando publicações (por exemplo, a coletânea De Amor e Anarquia – Relações Libertárias Ontem e Hoje – Editora Deriva, 2012).

Ao contrário do transporte público, o amor parece estar, a princípio, associado somente à esfera íntima. O amor parece caber simplesmente à iniciativa de quem o pratica.
Entretanto, o amor livre encontra uma série de “catracas”, barreiras sociais e estatais, que precisam ser compreendidas, criticadas, burladas, confrontadas ou eliminadas.
Afinal, o casamento monogâmico tem sido um dos pilares da organização do Capitalismo, fundamento da propriedade e da herança, recalcador do prazer que acaba encontrando sua sublimação no consumismo desenfreado que alimenta o Capital – pessoas insatisfeitas em suas relações com outras pessoas procuram satisfação em suas relações com as coisas. Além disso, o casamento monogâmico está associado ao machismo e a outras formas de opressão de gênero, a determinações religiosas e a uma série de regras que não são somente civis ou legais. Quem ama livremente pratica não só a desobediência civil, mas também a desobediência moral.
Uma desobediência que é bem diferente da trapaça que o machismo aplica na monogamia (fazendo vista grossa às puladas de cerca masculinas), porque a trapaça visa manter as regras do jogo (da monogamia) e a desobediência não quer essas regras e tenta mudá-las jogando. Se o trapaceiro às vezes se torna herói, aquele que se deu bem, quem desobedece as regras do jogo chamam de “estraga prazeres”. Ironicamente, acreditamos que estraga prazeres é a própria monogamia compulsória.
Confrontar-se com a moral e com as regras que nos constituem como pessoas envolve conflitos não só com terceiros e com quem se relaciona mas também da pessoa consigo mesma: é preciso questionar o sentimento de propriedade sobre quem se ama, aprender a lidar com o ciúme sem impedir a liberdade alheia, saber viver simultaneamente relações dotadas de características diversas. E aceitar relacionamentos que acabam juntando, direta ou indiretamente, mais de duas pessoas. No limite, a prática do amor livre pode levar à constituição de famílias diferentes do padrão dominante.
Já as leis brasileiras que regem a união estável entre parceiros que compartilham uma vida amorosa tornam o casamento monogâmico quase um fim obrigatório. Burlar tal compulsão depende da boa vontade libertária das pessoas envolvidas, confiando umas nas outras e evitando levar seus problemas aos tribunais. Contudo, nem sempre isso depende só delas, principalmente quando as uniões envolvem outras pessoas através de herança, divisão de bens, guarda de crianças, sobretudo caso a família conservadora de uma ou mais pessoas envolvidas não concorde com o amor livre.

Desse modo, parece que a luta pelo amor livre, assim como a luta pelo passe livre, além da estratégia da desobediência, também pode comportar a estratégia do reformismo e da mudança nas leis.
Leis que permitam a união estável entre mais de um cônjuge (formando um trisal, por exemplo), ou que permitam a criação de uniões estáveis de uma pessoa com duas ou mais (intersecção de dois ou mais casais) não são teoricamente impossíveis. Uma equação bem feita pode dar conta disso, considerando que, para a tradição liberal, o contrato faz lei entre as partes. Este é o caso da primeira união estável entre duas mulheres e um homem, realizada em agosto de 2012 no município de Tupã (São Paulo), considerada uma união poliafetiva. Em Recife (Pernambuco) já foi concedida a guarda compartilhada, com direito a registro e cuidado, de uma criança por três pessoas adultas, uma forma de adoção poliafetiva.

Essas reformas poderiam conter até um germe revolucionário, pois tais uniões acabariam gestando, contra a acumulação de Capital, modos de difusão de posses entre pessoas diversos daqueles da tradição ocidental moderna.
Se tantas alterações nas leis brasileiras de união civil têm sido feitas e aceitas no último punhado de anos (por exemplo, já é possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo), parece oportuno que praticantes do amor livre também defendam mudanças legais que lhes possam de algum modo favorecer: casar simultaneamente com mais de uma pessoa, por exemplo.

Enfim, passe livre e amor livre envolvem várias formas de ação direta e fazer-a-gente-mesmo, mudanças de comportamento na própria vida pessoal, pulando várias “catracas”.
O amor livre, especificamente, demanda um compromisso pessoal, uma mudança de comportamento e de crenças íntimas, uma transformação na vida doméstica mais intensa, mais direta e vivida. Tratar o doméstico como político, o íntimo como coletivo.
Pular catracas no transporte público, não pagar passagens, fazer catracaços etc. são ações diretas muitas vezes cotidianas, não sendo as únicas estratégias da luta pelo passe livre, outras que envolvem tanto o confronto direto com o poder público quanto a aliança com este poder, gerando as reformas que são o objetivo do movimento.
Quem ama livremente depende de uma prática diária intensa e pula “catracas” invisíveis, mas não menos duras: couraças e travas íntimas; moralismo; preconceito, maledicência e vigilância de vizinhos, família, colegas e a incompreensão de pessoas queridas. É uma luta que se realiza em si mesma: praticar o amor livre já é o amor livre. Aí as reformas são complementares, não essenciais.
O amor livre é tanto meio quanto fim de sua luta, não precisa esperar que o poder público tome uma atitude. A luta pelo passe livre se aproxima do amor livre quando transforma seus fins em meios, praticando formas gratuitas, coletivas, solidárias e libertárias de locomoção ou mudando as regras enquanto jogam o jogo.

Enfim, não são só umas ou outras mudanças nas leis. Lutamos para viver nossas vidas do jeito que quisermos. Seja para transitar livremente, seja para amar livremente. A luta pela liberdade é a mesma, uma favorece a outra. Pois é muito mais fácil visitar um amor que mora longe pegando um ônibus de graça do que pagando para isso...


Escrito por Guilherme às 17h29
[] [envie esta mensagem] []


26/10/2012

Apoio Mútuo de Gênero

Vivemos um momento de acirrados debates de gênero nos movimentos anarquistas e feministas. Protestos, questionamentos, revoltas e até trocas de acusações têm feito eco à situação de guerra e mesmo de militarização da vida cotidiana contemporânea. Reclama-se, enfim, da falta de amor disseminada pelas veias abertas do capitalismo.
A imensa dificuldade de diálogo que marca esta luta me faz crer na necessidade de uma auto-crítica ou, melhor, uma crítica dialógica. Um diálogo que supere os entraves do patriarcalismo socrático e que nos possibilite, de fato, saber algo, sim, uns sobre os outros.
Saber que nada sei seria uma profunda declaração de falta de amor à vida e à experiência.

Muitos movimentos radicais têm o costume de falar em ação direta e prática, ainda que não poucas vezes suas práticas se resumam a discursos de negação da opressão vigente.
Creio na importância da fala e da expressão verbal – que, no nosso caso alfabético, mistura-se à expressão escrita (como a que estou fazendo agora) – na transformação do mundo. O problema é quando esta fala, este logos, determina a ação limitando-a, fazendo-a funcionar apenas como discurso. Um efeito disso é a associação da ação direta à contestação e ao protesto, esquecendo-se às vezes do agir transformativo e afirmativo a partir do qual novas falas possam ser inventadas.

Há alguns anos o coletivo do qual faço parte cansou-se de apenas protestar. Naquele momento vivíamos o declínio das grandes passeatas anti-globalitárias, muitos coletivos e movimentos debandavam sob o signo da esquerda no poder (no caso brasileiro) e da “vitória contra a ALCA”. Decidimos começar a botar em prática aquilo em que acreditávamos ao invés de apenas atacar aquilo em que não acreditávamos. Passamos a gerir um espaço coletivamente, onde pudemos fazer experiências de autogestão, ajuda mútua, intercâmbios gratuitos e não mercantis (sem ignorar a necessidade do dinheiro na relação com o que nos cerca e ainda nos domina), agroecologia, horta comunitária, pedagogia libertária, conhecimentos sobre plantas, alimentação, saúde, solidariedade e liberdade em busca de uma autonomia perante o Capital e o Estado. Nesse processo, ampliamos nossa ação através da aliança e da mutualidade entre diversos outros coletivos e movimentos.
Hoje os movimentos globais anti-capitalistas têm ressurgido com grande força e uma nova geração têm se envolvido em várias formas de protesto. Os Anonimous, as marchas feministas, os debates de gênero e sexualidade, além de maneiras inovadoras de organização que buscam criar outras relações a partir da base coletiva, como as Acampadas e o movimento Ocupai.
No diálogo com essa nova geração é preciso, contudo, tratar de velhas questões.

A questão de gênero tem se tornado altamente complexa, com o desenvolvimento de novas problemáticas: pós-feminismo, movimento GLBT, movimento queer e até pós-queer. Entretanto, um velho embate ainda se trava entre mulheres e homens, em busca de uma ruptura com o machismo. Nesse ponto, vejo como necessária uma reflexão sobre as práticas que almejam criar a partir de agora um outro mundo possível.
Para além das acusações, do policiamento das palavras, das avaliações estritamente racionais, da maquinação conceitual, dos julgamentos com base nos discursos, precisamos encontrar práticas de “mais amor, menos motor”, como dizem os amantes da bicicleta.
Nesse sentido, alguns (dentre vários) campos chaves devem ser revirados para que se plantem e se colham relações mais livres e solidárias: a divisão do poder, a divisão do trabalho e as relações amorosas-sexuais. Do meu ponto de vista, o caminho para se tratar de todas elas parte de um princípio básico: mutualidade, solidariedade, aliança, apoiar e fazer pelo outro como o outro apóia e faz por você.

Quando o coletivo Ativismo ABC tomou posse da Casa da Lagartixa Preta “Malagueña Salerosa”, muita reforma e façamos-nós-mesmos foram necessários para começar. Nessa época, apesar do número de mulheres e homens no coletivo ser equilibrado, quase sem querer, vimos-nos reproduzindo estereótipos da divisão sexual do trabalho: mais mulheres na cozinha, mais homens na pedreiragem. Logo nos demos conta disso e passamos a inverter e misturar as estações. O prestigiado e pesado trabalho de construção passou a ser experimentado com ênfase pelas mulheres, o interminável e pouco valorizado trabalho da cozinha, da lavagem de louça, da limpeza, pelos homens.
Cedo sentimos a necessidade de divisão voluntária de tarefas e da importância das reuniões coletivas de discussão e planejamento em que todas e todos tinham voz, buscando o consenso, sem ignorar o dissenso. Quando nos deparamos com um importante texto de crítica feminista que circulava entre anarquistas da época (A Tirania das Organizações Sem Estrutura, de Jo Freeman, que salienta a importância da formalização organizacional, contra o esponteneísmo que fazia com que grupos de amigas em torno de causas políticas acabassem privilegiando pessoas mais bem articuladas e com mais contatos, criando posições de liderança que supostamente não existiam, marginalizando as menos antenadas ou mal relacionadas), identificamo-nos com as propostas da autora e passamos a praticar mais maneiras de anti-poder.
Tornamos o eixo diagonal da autoridade, do conhecimento e da experiência em relações mais horizontais: transmitir os conhecimentos entre o maior número de pessoas, dividindo comissões, tornando rotativas as funções. Tarefas como a de tesouraria, gerenciamento de lista de e-mail, contatos externos, zeladorias da casa, limpeza etc. passaram a conviver com comissões específicas: da horta, da biblioteca, do nosso jornal El Saleroso, dentre outras. Reconhecemos, contudo, que as pessoas tem suas particularidades e dificuldades, e que o saber de cada um deve ser valorizado.
Para além das tarefas e comissões, algumas pessoas mais ativas, antigas no coletivo ou mais expansivas em suas relações externas continuam a se destacar, dentre essas pessoas várias são mulheres. Não sem insistirem que outros, menos participativos ou mais tímidos, também circulem mais em nome do coletivo.
O trabalho da pedreiragem tornou-se uma espécie de índice, para vários membros do coletivo, da busca de autonomia e da ruptura com a divisão sexual do trabalho, mas ainda parece ser mais valorizado do que outros, como o de limpeza ou louça. Não que esses trabalhos não sejam também divididos e executados. Em alguns casos, novas divisões sexuais parecem surgir, seria interessante perceber se são obra do acaso, da preferência pessoal ou não. Por exemplo, a tesouraria, apesar da rotatividade, nunca foi voluntariamente assumida por nenhuma mulher.
A transformação dessas relações é um trabalho e uma política permanentes e inacabados, mas temos lidado com elas de maneira frutífera, sem grandes rupturas ou rachas, graças a um princípio básico: prezamos pelo debate, pelas decisões coletivas dialogadas, pela aliança entre as diferenças.

Já nossas relações amorosas são menos debatidas coletivamente e são as mais variadas. Casais já se formaram, alguns terminaram, relações livres foram mantidas entre alguns, opções sexuais diversas foram expressas de maneira tranqüila. Temos tentado amadurecer uma discussão sobre amor livre.
Mas no plano do discurso, mais do que no da prática, temos encontrado dificuldades, sobretudo ao levar a questão para fora do coletivo. Na tentativa de promover debates, encontramos discursos de vitimização vindo dos “dois” lados e trocas de acusações entre homens e mulheres. Parece que, nesse campo, os conceitos se tornaram verdadeiras barreiras para as práticas. As maneiras de sentir e de se envolver emocionalmente parecem mais resistentes, ainda assombradas pelo moralismo, pelo individualismo, pelo romantismo burguês e pelo medo de abrir-se à alteridade.
Ainda assim, temos nos esforçado no coletivo para estabelecer um relacionamento interpessoal carinhoso, demonstrando afeto, tocando, abraçando, beijando, experimentando (não sem dificuldade ou falta de costume) contatos corporais que fujam ao padrão beijo-no-rosto-e-aperto-de-mão. Penso que, nesse ponto, o amor encontra-se com a amizade, ao contrário do que dizem algumas canções da música popular.

Acredito que o desentendimento em torno das relações de gênero pode ser vencido se buscarmos práticas de apoio mútuo entre mulheres, homens etc..
Certamente, na divisão do trabalho e do poder, essas formas de reciprocidade são mais fáceis de serem compreendidas: nos intercâmbios de conhecimento, na atividade conjunta, na divisão das tarefas e das responsabilidades (como bem propôs Jo Freeman), levando-se em conta a rotatividade não só pessoal mas também de sexo e gênero.
No que concerne ao amor, as maneiras de se relacionar são variadas e pessoais e é difícil traçar um plano de ação coletivo sem ferir liberdades.
A fala, a conversa, ainda é uma maneira de se apoiar mutuamente. Mas uma conversa que trate mais de experiências vividas, tentadas ou frustradas, do que de conceitos previamente estabelecidos. Que mulheres possam ouvir e aconselhar homens, gays ouvir e aconselhar héteros, queers ouvir e aconselhar amantes de preferências menos plurais e vice-versa ou entre si, sem a ilusão de que as coisas se passem de maneira igual para cada parte. Conhecer como a alteridade se sente é uma maneira interessante de desconstruir muros e abrir campos férteis.
Quando se trata de fazer justiça contra violências de gênero, brigas ou dificuldades surgidas entre pessoas parceiras, têm sido gestadas formas muito mais libertárias do que o julgamento sumário e o escracho. Formas de justiça restaurativa, como o Círculo Restaurativo, parecem-me alternativas viáveis, surgidas há pouco tempo entre os movimentos populares e valorizadas por uma parte da nova geração. Envolvem a valorização da conversa e dos sentimentos, bem como o compromisso de sanar o mal que se fez ao outro através de ações práticas. Para mim, isso tem muito a ver com o apoio mútuo.
Se queremos reconstruir juntos uma vida coletiva, não me parece a melhor alternativa reproduzir nela práticas burguesas e patriarcais de julgamento (policiamento, apontar dedos, ataques sumários), a não ser que queiramos estar para sempre separados e em guerra contra aqueles que são inimigos dos nossos inimigos. Se queremos transformar as relações de gênero, precisamos saber transformar “inimigos” (homens versus mulheres, ou mesmo correntes de pensamento ou anarquismo diferentes) em amigos, não simplesmente “perdoando-os” de seus fardos históricos ou pessoais, mas distribuindo os fardos e desconstruindo não só gêneros mas pessoas, reconhecendo suas necessidades, debatendo formas de satisfazê-las.

Enfim, o amor é uma chave das políticas de apoio mútuo. Sejam elas de trabalho, de divisão do poder, de conhecimento das angústias e dificuldades da outra e do outro, de amizade, intimidade e, finalmente, enamoramento e sexualidade.
Não é só de luta e guerra, necessárias, que vivem aqueles que buscam por uma vida livre.
Proudhon, quando pensou o mutualismo como fundamento do princípio federativo libertário, mesclando num só movimento a política e a economia, deixou o amor de fora, cioso dos valores familiares e monogâmicos do século XIX… Mas podemos tomar as sugestões de Proudhon e superá-lo. Afinal o tempo não pára, ele volta e vai, trazendo o amor para a política e a política para o amor, buscando praticar hoje uma vida que valha a pena ser vivida. Nesse sentido, pensar o apoio mútuo no amor é também pensar o apoio mútuo com amor, constituindo alianças libertárias.


Escrito por Guilherme às 17h08
[] [envie esta mensagem] []


20/07/2012

Patriarcado: o mito da servidão voluntária feminina? (I de IV)

Tenho notado atualmente nos discursos feministas um apelo preponderante à noção de “patriarcado” como fundamento científico de suas justificativas políticas.

Já expressei minha insatisfação com esse cientificismo mitificador noutros textos deste meu vagaroso blog, o que tomou forma coletiva no livro De Volta Para o Futuro Primitivo (publicado pela editora libertária Deriva: http://www.deriva.com.br/), coletânea vinda à luz há uns meses atrás depois de poucos anos de gestação.

Resolvi abordar de novo o uso político da história porque me parece a melhor entrada para uma questão de gênero que tem incomodado a mim (e às companheiras que me aturam) faz tempo: o obscurecido poder feminino nessas relações.

Parece a melhor entrada porque é justamente a história do patriarcado que abre as portas de muitos discursos feministas que tenho lido e ouvido recentemente. Se abriram as portas, aceito o convite de entrar.

Espero, nalgum momento depois desta entrada, ao lado do cabideiro, despir-me da armadura da história, mais pesada que a de um guerreiro medieval, expondo meu corpo ao debate, trazendo o debate para o corpo-a-corpo das nossas vidas.

*

Acredito que depois de tantas turbulências nas hierarquias de gênero neste último século, as mulheres acabaram esquecendo de eliminar um dos fundamentos desta “construção histórica”: apontam para todos os pilares fálicos, as flechas de atravessar corações ou os foguetes de destruir em massa, os mastros da lona desse circo, e se esquecem do vão central do picadeiro, das funduras das fundações estruturais, do buraco mais em baixo e seu abismo.

*

A versão resumida do mito científico do “patriarcado” diz basicamente o seguinte: em um período tal ou qual da pré-história, alguns estudiosos afirmam ter existido, conforme certas evidências fósseis ou arqueológicas, organizações coletivas prévias em que predominava o “matricentrismo” (“matriarcado” seria poder demais!), fundado no poder feminino de gerar a vida. Intrigados, ao descobrirem uma era depois o papel masculino na concepção de outras pessoas, os homens tomariam o poder, dando início ao “patriarcado”. Essa virada de mesa ou, melhor, transformação da mesa em uma pirâmide de dois degraus, teria marcado a história até hoje.

Não vou me ater a críticas aos dados arqueológicos e históricos ou à crença na ignorância masculina primitiva sobre a concepção. Só aconselharia não ver tantas certezas assim num sistema de conhecimento – o científico acadêmico – que tem como base a dúvida.

Mas prefiro falar do ponto fundamental da virada de mesa sugerida por essa história, mito ou mito-história: a tomada do poder das mulheres pelos homens.

Como imaginar, em algum momento do tempo, que os homens tenham tomado o poder das mulheres, ou instaurado o poder sobre as mulheres, e que as mulheres não tenham resistido? Ou que, malgrado tentassem, não pudessem vencer a força masculina? Que armas invencíveis detinham os homens contra elas? Como teriam sido derrotadas? Enfim, por que as mulheres teriam perdido?

A idéia de que os homens teriam tomado o poder das mulheres sem resistência por parte delas parece imitar um odioso argumento do estupro: se aconteceu, é porque a vítima deixou, dizem.

Para não recair nele, pensemos em situações menos violentas, em casos menos escandalosos, como relações de longos anos em que um dos parceiros exerce sobre o outro pequenos abusos. Nestes casos, cabe perguntar: por que a parte abusada não dá um basta? A não ser que tenha um saber e um poder muito menor – como uma criança seduzida por um adulto – uma reação desse tipo não é essencialmente impossível. Pois a relação de gênero exposta na hipótese pressupõe, a princípio, dois lados fortes, ainda que qualitativamente diversos: o homem que, segundo o mito, deseja subjugar; e a mulher que, segundo a mesma história, tem um poder a mais e não está ainda em situação inferior. Ainda tem a força.

Se a tomada de poder dos homens contra as mulheres for pensada como conspiração, como golpe de mão forte, ataque inesperado, pode facilmente remeter a uma revolução autoritária, um estupro violento. Mas para um gesto desses tomar de assalto toda a humanidade, seria preciso antes de tudo uma humanidade una, uma história una (contada num livro uno, provavelmente sobre um deus uno).

Imagine-se, então, esta única humanidade na qual a distinção de gênero ficasse tão gritante de repente (e não mais que de repente) mas que logo em seguida se estabilizasse, com os homens acima das mulheres. De um só golpe, teria sido retirada das mulheres toda capacidade de reação.

Acontece que as alusões ao “patriarcado” muitas vezes pressupõem um “matriarcado” (ou algo “matrifocal”, “matricêntrico” etc.) no qual as distinções de gênero já estariam estabelecidas entre homens e mulheres... E essas distinções teriam, de alguma forma, munido os homens da força que usariam para subjugar as mulheres, mantendo-as durante milênios a seguir alheias às técnicas de uso desta força. Ou seja: um já estaria contido em seu contrário.

Mas e se a tomada de poder masculina não tivesse sido tão radical assim? Tivesse sido mais gradual, lenta, amena?

Bem, diriam, então não seria masculina, já que as técnicas não violentas de poder costumam ser de conhecimento feminino. Ou então, na melhor das hipóteses, haveria algo de subjetivamente feminino na lenta ascensão masculina, já que, seduzidas pela malevolência trigueira dos homens, as mulheres teriam aceitado papéis, assumido postos, tomado decisões.

Seduzidas? Se queremos considerar as mulheres como agentes, como capazes de tomar atitudes e como pessoas que tiveram tal capacidade usurpada, é preciso considerar que tinham esta capacidade e que, nesse processo agiram, menos ou mais, conforme a própria vontade.

A questão é parecida com a de La Boétie, em O Discurso da Servidão Voluntária. Ele pergunta aos súditos do Estado: se o tirano é só um e vocês são vários, por que não se rebelam? Uma das respostas possíveis é dada pela corte do tirano, aqueles três ou quatro, cinco ou seis, que estão logo abaixo dele e que obtém vantagens dessa posição. E assim sucessivamente, o servo se aproveita do senhor, até os níveis mais baixos da cadeia humana.

A comparação entre a relação de gênero “patriarcal” e o argumento da servidão voluntária pode não ser boa: estatisticamente, o número de homens quase sempre empata com o de mulheres e, onde se vê um encadeamento piramidal da tirania, na relação de gênero se vê uma oposição diametral, ainda que hierárquica.

Mas é bom lembrar, conjugando as duas análises sobre a mesma realidade (a realidade da opressão e da servidão), que no topo da corte do tirano, ao seu lado ou abaixo dele, existe uma princesa. Princesa que, como cantavam os cavalheiros que lhe faziam a corte no fim da Idade Média, era a senhora de seus corações.



Escrito por Guilherme às 23h55
[] [envie esta mensagem] []



Patriarcado: o mito da servidão voluntária feminina? (II de IV)

Enfim, resta a pergunta: como os homens, organizados ou não, teriam tido condições de dominar mulheres em número praticamente idêntico ao seu, sem que reagissem ou sem mesmo despertar nelas qualquer suspeita de golpe? Teria sido um golpe de sorte, uma violenta rasteira, da qual as mulheres custariam séculos a se levantar? Ou, num movimento lento e constante, alguma vantagem prévia masculina, em termos de força corporal, teria feito o truque?

Considerar que os homens eram mais fortes que as mulheres e que por isso venceram o conflito, seja repentinamente, seja gradualmente, pressupõe o dimorfismo sexual humano como anterior à história. Num momento histórico em que dizemos que “tudo é construído”, pensar que a força masculina é um dado natural soa como puro anacronismo.

Por sua vez, caso o dimorfismo de gênero não fosse prévio, seria então fundado naquele golpe e, portanto, a essência do masculino seria justamente o golpe, a violência. “Masculino” seria apenas o rótulo do vitorioso e dominador, daquele que usa da força.

Tanto faz, venha primeiro o ovo ou a galinha, o sêmen ou o homem: a associação entre masculinidade e violência é necessária para o argumento. Se a hipótese da conspiração masculina é quase absurda em termos historicistas, vem contudo ao encontro dos estereótipos de homem violento e poderoso e mulher carinhosa e submissa.

Por outro lado, a hipótese da lentidão, da história das disciplinas e da normatização do corpo, poderia apontar para poderes recíprocos na fundação das relações de gênero. A partir dela suporia que a força masculina é tão criada pela história da técnica e da disciplina corporal quanto a fraqueza feminina.

Mas a fraqueza é só feminina? Afinal, a história das técnicas do corpo modernas argumenta que para se disciplinarem conforme seus papéis, tanto os homens quanto as mulheres tiveram seus corpos docilizados. (Não fossem eles dóceis, seriam tachados de anormais, etiquetados e submetidos a mais disciplinamento, até que a armadura de adamântium da história fosse costurada dentro de seu corpo e, raivosos, esses anormais, punks, gays, queers, loucos, bandidos, mutantes, tivessem hipersensibilidade ao outro, gritando ao vê-lo se aproximar).

Conclui-se com isso que os homens são tão fracos quanto as mulheres, ao se subjugarem docilmente à disciplina. Por outro lado, o uso da violência masculina é tanto seu poder quanto sua obrigação, seu martírio, sua perdição. O que faz pensar que a fraqueza feminina possa ser, por sua vez, seu resguardo e sua proteção, uma sábia e poderosa escolha contra as intempéries da guerra e de sua extensão, a política.

Enfim, em algum ponto dessa história parece possível imaginar que as mulheres tiveram participação subjetiva nas definições das relações de gênero e que, por outro lado, os homens tiveram que se subjugar a certos padrões – de modo que os homens, que detêm tanto poder patriarcal, também estão subjugados de alguma forma. E as mulheres, ao subjugarem-se aos homens, também estabilizaram certas inversões hierárquicas e dispuseram-se de poderes sobre eles, por mínimos que forem. Poderes que precisam ser levados em conta ao se questionarem as relações de gênero.

*

Num texto inspirador para futuras mito-histórias, Pierre Clastres (antropólogo adorado por alguns primitivistas que também se pronunciam contra o “patriarcado”) fala do “Infortúnio do Guerreiro Selvagem”: o excesso de poder agressivo concentrado por uma elite de guerreiros assassinos do Chaco na América do Sul (mas também por outros heróis mais conhecidos, como o Jerônimo dos filmes de faroeste) não os teria levado à criação de uma força estatal porque se auto-sabotaria em sua própria essência, obrigando seus potentes praticantes à morte. O guerreiro só existe na guerra e precisa ir atrás dela a todo tempo, entregar-se sozinho, se preciso for, ao combate com incontáveis inimigos, entregar-se à morte. A máquina de guerra não se realiza como máquina de Estado ao se auto-sabotar, ao desviar de si mesma, contra si mesma.

Em meio a tantas perdas populacionais na guerra dos chaquenhos, Clastres surpreendeu-se com a falta de contrapartida de natalidade para suprir a depopulação. Por isso, sempre atento aos desequilíbrios e às inversões de hierarquia, aventou uma hipótese fundamental sobre as relações de gênero: a baixa natalidade desses guerreiros do Chaco seria fruto de uma reação das mulheres, descontentes do excesso de poder assassino masculino. Para isso, essas poderosas mulheres teriam colocado em prática métodos radicais de controle dos nascimentos, anticoncepcionais e abortivos.

Clastres identifica aí certo padrão das relações de gênero “selvagens”: quando o homem pilota a máquina de guerra, a mulher guia a máquina demográfica. Quando o poder do homem está em viver e morrer pela violência, o poder da mulher está em matar ou dar vida pela procriação.

Seria duvidoso generalizar para toda a humanidade as relações de gênero do Chaco ou mesmo de outras paragens ameríndias, mas a questão da mulher ameríndia tem intrigado faz tempo algumas antropólogas feministas1. O mérito de Clastres não precisa ser o de propor uma resposta universal para a questão do poder de gênero, mas sim balançar a própria noção de poder. Notar o quanto a hierarquia pode ser instável e alternada. O poder, numa relação que pesa diferentes qualidades nos pratos da balança, não está em nenhum dos pratos. Ou melhor, tenciona entre os dois: o ato da pesagem é constante, os agentes não param de interferir, a balança está sempre em movimento.

1 Para dar um exemplo dentre dezenas, veja o trabalho da antropóloga Vanessa Lea sobre a preponderância de poderes femininos do domínio doméstico sobre o público entre os Kayapó.


Escrito por Guilherme às 23h47
[] [envie esta mensagem] []



Patriarcado: o mito da servidão voluntária feminina? (III de IV)

Esta leitura mais ou menos estruturalista da hipótese de Clastres1 não deve ser entendida como anti-histórica mas como a exposição de mais um ponto (quem conta um conto sempre “aumenta” um ponto) a ser posto em relação com outros para se considerarem as transformações estruturais nas relações de gênero. Em suma, se temos registros de conjunturas estruturais específicas nas relações de gênero ao longo dos tempos, e não apenas uma linha reta sem pontos de inflexão, como pensar o poder da mulher hoje, pós-século XX, quando já pode votar e ser votada, trabalhar assalariada, estudar e tirar notas altas, ocupar cargos e postos iguais aos ocupados pelos homens? Sim, ainda faz isso com prejuíso, ganhando menos, com dupla jornada, mas são conquistas perante um estado anterior muito mais desigual.

Por que comparar este momento histórico somente ao momento mito-original do surgimento da desigualdade “patriarcal” de gênero e não compará-lo, na cadeia de transformações estruturais do sentido dado ao tempo, a momentos como o surgimento do amor cortês e da figura da Princesa, por exemplo, senhora do amor de tantos súditos-poetas?

A Princesa tem uma espécie de poder romântico, poder do amor. Não o poder de amar, veja bem, mas o de ser amada. Se, segundo Maquiavel, para o Príncipe é melhor ser temido do que ser amado, para a Princesa, muito pelo contrário...

Opondo essas duas formas de poder, a do Príncipe e a da Princesa, se a política é a guerra por outros meios, haveria uma outra política por trás desta, uma política do amor? “Por trás” não no sentido de mais verdadeira, mas de fundo (como na relação entre figura e fundo)? De modo que, como diriam os franceses, precisamos “cherchez la femme” – procurar a mulher –, encontrando nela o motivo dos conflitos entre os homens?

Levando essas perguntas em conta, deve-se notar que o comportamento e a estética femininas, na virada moderna e pós-moderna dos séculos, mantém uma continuidade muito aparente com a estética nobre da era pré-burguesa, com o luxo cortesão que, na era pós-industrial, já não se trata necessariamente de pura riqueza. Nem nunca se tratou: à mulher da primeira burguesia não adiantava ser muito mais rica que à nobre se não se comportasse como mulher da corte.

Corte que é aquele círculo de três ou quatro, cinco ou seis – conforme a ironia de La Boétie – de bajuladores do poder.

Se depois da revolução burguesa homens dominantes desceram do salto alto, pararam de usar peruca e pintar a cara, arregaçaram as mangas e cortaram as unhas, as mulheres dominantes continuaram constituindo seus corpos de modo a valorizar o que há de mais distante neles da vida prática. Ainda que a mulher, em dupla jornada, agache para limpar o chão de casa ou da rua, o ideal estético da mulher não é o mesmo ideal estético do homem: mesmo quando bem arrumada, a estética dominante masculina se afirma como rústica, sóbria, pragmática: no máximo, terno escuro e gravata.

A figura feminina contemporânea depende de uma série de subterfúgios estéticos e comportamentais semelhantes aos da corte nobre. Como nobres, a maioria das mulheres ainda usa maquiagem, roupas complicadas, penteados arquitetônicos, apliques, saltos altos, muito mais jóias que os homens e várias outras formas de embelezamento. Até a mulher menos endinheirada deve provar-se mais alta e elevada, distanciar-se da vida grossa e suja, encher-se de mesuras, nojos, delicadezas e não-me-toques (ao contrário da troca de pancadas costumeira entre os homens). É toda uma idéia que em língua portuguesa se chama “frescura” - palavra que, em seu sentido mais próprio, fala de jovialidade, leveza, resfriamento...

Em suma, a forma correta e dominante de tratar as mulheres continuou sendo a forma nobre, cavalheiresca, pré-burguesa. Diversos comportamentos continuam sendo reforçados como deveres masculinos (comportamentos que têm tido sua ritualização máxima na reacionária “comemoração” florida do Dia das Mulheres): ceder o lugar a uma dama, servi-la primeiro, bajulá-la, estar pronto para ampará-la, ser praticamente seu guarda-costas. O homem é, nesse papel, não o Príncipe, mas o cortesão da Princesa, cavalheiro e cavaleiro. A Princesa jamais se entrega a ele, somente ao Príncipe, ou melhor: aquele à qual ela se entrega se torna o Príncipe, de quem ela será a servidora voluntária número Um. Jamais contra o Um, mas a favor dele, pois é nessa relação que constitui seu poder.

Não é por menos que tantas mulheres se casam vestidas de noiva, de princesa. Apesar das conquistas do século XX, as mulheres do mundo Capitalista continuam tendo que compensar o dimorfismo sexual “historicamente construído” (que as torna mais baixas e fracas que os homens) usando sapatos de salto alto. E a saia, cujos movimentos levam à fácil exposição das “partes íntimas”, continua sendo roupa predominantemente feminina no chamado “Ocidente”, sendo que a calça, mais prática e menos expositora, continua sendo a única roupa digna da maioria dos homens.2


1 Inspirada tanto pelo famoso antropólogo Lévi-Strauss como por estudos atuais feitos por seus discípulos – vale a pena procurar os trabalhos de Beatriz Perrone-Moisés e Renato Sztutman sobre política ameríndia, por exemplo.

2 Obviamente, nenhuma dessas peças de roupa, dessas estéticas e comportamentos, em si, contém o germe da dominação ou simboliza plenamente a aceitação de todos os valores vinculados a elas. Não é porque usa saia ou mesmo se casa de noiva que uma mulher está aceitando plenamente esses papéis, ou por usar calças e terno o homem esteja fazendo o mesmo. Tampouco basta não se vestir de noiva ou não usar saia para uma mulher romper com isso, ou então usar saia para o homem romper com isso. Esses elementos não são determinantes, mas compõem a cena, a situação contemporânea de gênero, e devem ser considerados em relação entre si e com as vidas concretas, práticas ,crenças e não-crenças de suas pessoas – mas que existem, existem.


Escrito por Guilherme às 23h46
[] [envie esta mensagem] []



Patriarcado: o mito da servidão voluntária feminina? (IV de IV)

Finalmente, como é possível, hoje em dia, existirem tantas princesas e ao mesmo tempo tantos vilões – mas tão poucos príncipes encantados?

Quem quiser trazer estatísticas para o debate, sugiro procurar o assustador percentual de mortes violentas masculinas comparado ao percentual de mortes violentas femininas, causadas pelos próprios homens. Há uma distinção de gênero clara nesses índices: quando comparados com as mulheres, os homens são tanto os mais violentos quanto os que mais sofrem violência.

Se o fato dos homens serem mais violentos confirma a hipótese da dominação violenta masculina, o fato de sofrerem mais com isso coloca-os num patamar abaixo das mulheres em termos de “qualidade de vida”.

Pensando, por exemplo, os índices de violência da sociedade brasileira contemporânea, seria tentador fazer sobre ela a análise que Clastres fez sobre o Chaco: os homens estariam sendo vítimas de seu próprio poder. Entretanto, as mulheres, proibidas de abortar, não teriam condições de reagir a isso – para a infelicidade dos buchas-de-canhão.

Se são vítimas desse poder, por que os homens ainda insistem tanto nele? Não seria porque precisam provar, também para as mulheres, que podem defendê-las, lutar por elas, estar a serviço delas? Não estariam os homens, portanto, sujeitos a uma inexplícita opressão feminina?

*

Não quero, com isso, fazer um discurso de vítima e encobrir as reais opressões exercidas pelos homens diariamente contra as mulheres. Essas formas de opressão são muito bem documentadas, estudadas e conhecidas, e a luta contra elas é legítima e cotidiana. Também sou inimigo da violência masculina contra a mulher e de diversas outras maneiras mais amenas de opressão.

Entretanto, nota-se tanto uma servidão voluntária masculina ao assumir o papel violento para o qual foi indicado (e ao servir de bucha de canhão de quem não vai para a guerra...) quanto uma opressão violenta que os homens sofrem diariamente quando sequer tentam escusar-se deste papel.

O que aponta para o quanto as mulheres também se vitimizam, ao ignorarem a opressão sofrida pelos homens e as vantagens que elas obtém disto.

Para abandonarem o posto da vítima é preciso que assumam os riscos da luta, os treinos para a guerra, o promissor infortúnio da guerreira selvagem1. Uma luta que não se aprende de uma hora pra outra: qualquer garoto criado pela disciplina corporal escolar – ou pela escola da rua – pode lhe contar o quanto teve de repetir em “chamadas” orais e braçais ao longo de sua vida a lição da “lei do mais forte” e o quanto teve de apanhar.2

Para abandonarem o posto da vítima e de candidatas à guilhotina, também é preciso que as mulheres abdiquem do lugar de nobres: que desçam do salto, do pedestal, do trono e do altar amorosos. Que não busquem pelo Príncipe, pelo Um. Que coloquem-se, perante o homem, no mesmo plano que ele: o plano de seus corpos, com suas variações de tamanho, peso, força, gordura, aptidões, capacidades, desejos, inferioridades e superioridades. No plano dos embates, riscos, acidentes, toques, tentativas, aberturas e fechamentos, procuras e ofertas, experiências. Seja no plano mundano, seja no plano da magia simpática, fazendo sagrado e profano apertarem as mãos. Independente de qual seja o gênero da relação.

1 Ou, se preferirem – por que não – a luta pelo aborto.

2 Algumas mulheres com quem já conversei sobre isso realmente ficam surpresas com a rotina de violência a que um homem está sujeito ao longo de seu desenvolvimento pessoal.

P.S.: Fui lembrado por uma mulher de que muito deste argumento remete ao de Colette Dowling, em Complexo de Cinderela, obra que já tive em mãos.

P.P.S.: O argumento da servidão voluntária não aparece aqui para justificar a dominação - "ah, as mulheres querem servir" - mas sim para que tanto os homens possam criticar sua própria servidão à guerra quanto as mulheres possam criticar seu poder amoroso e cortesão. Tampouco esse argumento pode ser extendido a tudo - racismo, especismo etc., o proprio La Boétie apresenta impedimentos a essas generalizações em seu argumento, falando inclusive sobre os animais. Além disso, se me expresso a partir dos extremos do gênero - o homem, a mulher - não quer dizer que devamos nos manter estereotipados, mas sim que devamos reconhecer e criticar os estereótipos que se realizam nas práticas.


Escrito por Guilherme às 23h45
[] [envie esta mensagem] []


25/01/2012

Violência Policial em SP: tradição ou novidade?

Eu estava conversando com uma amiga que está longe da internet, para saber se ela compartilhava dessa percepção que a gente que passa o dia online tem da escalada de violência em São Paulo.

Porque hoje é certo que a internet e as câmeras fotográficas eletrônicas e filmadoras de bolso ajudam muito a disseminar uma informação que antes estava restrita aos silêncios locais, às histórias de bar, aos jornais panfletários (nos sensacionalistas o que sempre apareceu foi o inverso), às vidas dos pobres em dinheiro e dos marginais do mercado.

Ela acha que, embora a violência sempre esteve aí, citando até um documentário do Zumbi Somos Nós e uma pesquisa a respeito da história da polícia - sempre a serviço da propriedade (como sempre disseram os socialistas) -  e que "direitos humanos" era o nome do cacetete usado na FEBEM, está havendo um aumento, sim.

Esse aumento, conforme dialogávamos, tem a ver com a ascensão social e a entrada no mercado de certas camadas da população que foram marginalizadas ao longo dos séculos e que agora, por bem ou por mal, são tragadas pelo sistema com mais intensidade. Desenvolvimentismo, enfim. Pois esses novos "incluídos" demandam direitos que antes não tinham. Com isso, o mecanismo de distribuição da violência estatal explode, chegando aos pólos mais extremos. Cracolândia e Universidade: essas são as novidades do ano.

Desalojo de moradores de ocupações, infelizmente, não me parece novo. Não menos pior, mas é algo do que temos ouvido falar com mais freqüência. Saber da polícia ocupando com violência um espaço universitário é coisa que não acontece desde a ditadura. E o tratamento dado aos craqueiros, se em alguma medida remete ao que já foi feito contra os camelôs no centro de SP, parece mais degradante: é como espancar doentes.

Agora, se a polícia "sempre foi assim", como dizem os conformados, porque outras coisas mudaram? Por que, por exemplo, a educação pública no Estado de São Paulo, que abrigou e formou esta classe média que hoje é maior de sessenta anos de idade, está tão achincalhada? Por que temos tantos pedágios em São Paulo, se antigamente podíamos viajar livremente por este estadão, inclusive de trem? Por que não se vê mais carros velhos nas principais avenidas do Estado, e o paulista - se não o brasileiro - vive cada vez mais em função de trocar e financiar o carro do ano que vem pelo carro do ano passado? Muitas coisas mudaram, a vida "melhorou" para muita gente, muitas coisas pioraram, outras continuaram iguais? Enfim, por que umas coisas mudam, outras não?

Até hoje a sociedade burguesa paulista tem sido preparada para incluir certos tipos de gentes em detrimento de outros. Há poucos séculos atrás, a opção foi feita pelos imigrantes brancos em detrimento dos ex-escravos negros. Com a chegada de imigrantes mais queimados de sol, ficou mais difícil diferenciar pelo contraste. Uma mudança começou e vemos hoje o seu resultado. Enquanto esses imigrantes da seca chegam aos pouquinhos à gerência, à presidência e aos antigos clubes operários da barulhenta classe média do subúrbio, parece haver um vazamento nas tubulações de transmissão de riqueza e não se sabe escolher entre fechar o registro ou encher a torneira de pancada. E se nada disso der certo, ainda haverá um jeitinho?

Como vamos acolher o futuro dessas relações? Num futuro desenvolvimentista e kafkiano? Ou no futuro do pretérito? Com um abraço? Ou com uma porrada? Será que vamos ter de imitar os estudantes chilenos que abraçaram a tropa de choque? Como irá nos retribuir: sorrisos ou borrachadas? Pelo amor, governador...

Triste aniversário para a capital: esta é a cereja de um bolo em forma de pirâmide que tem sido construído há mais de quatrocentões anos.

 

 


Escrito por Guilherme às 14h02
[] [envie esta mensagem] []


03/01/2011

Sobre tomada de decisões (I de III)

O Ativismo ABC, coletivo do qual participo, está num esforço de teorização sobre suas práticas e pretendo contribuir com isso analisando um ponto que considero fundamental para uma vida mais libertária e solidária: a tomada de decisões.

Nem sempre duas ou mais pessoas aliadas precisam tomar uma decisão que afete sua vida comum. Podem, mesmo sendo aliadas, viver diversos aspectos de sua vida separadamente, ou com pessoas diferentes. A primeira liberdade é, portanto, não ser obrigado a estar vinculado somente àquela relação ou coletivo.

Outra liberdade possível, dentro de uma experiência coletiva, é poder levar sua própria vida, seus fazeres e não-fazeres, sem precisar da concordância de todos. Para isso é preciso uma outra concordância: a de que cada um, ou dois, ou mais, possam fazer ou deixar de fazer algo por conta própria para o coletivo. Mas o problema aparece quando essa decisão desagrada alguém do coletivo...

Neste caso, bem como nos casos em que um coletivo libertário e solidário decide fazer algo junto, é preciso que a decisão seja tomada de forma comum do modo o mais livre e solidário possível. Assim, em prol da solidariedade, a liberdade de cada um deve estar subordinada à liberdade dos outros. Portanto, deve estar obrigada a ela. Caso contrário, basta simplesmente que haja uma cisão, uma separação, o final da relação.

Mas se o desejo é o de manter a relação, então é preciso que haja alguma forma de abertura por parte dos envolvidos, de aceitação da vontade do outro, de transformação da vontade.

Quando duas ou mais pessoas desejam fazer algo juntas ou que afete umas às outras, já de partida têm algo em comum. É esse algo em comum, a comunhão de um espaço ou meio, o desejo pela mesma coisa, um objetivo a ser alcançado, uma tarefa a ser feita, a realização de um sonho, que de algum modo às mantêm juntas. Há também o desejo pelo outro: duas ou mais pessoas estão ou podem estar juntas porque querem uma à outra, porque encontram na outra algo que não encontram em si mesmas, porque buscam na própria relação um fundamento de vida.

Na relação, por princípio ou por acaso, a diferença cedo ou tarde se manifesta. Por mais de acordo que duas ou mais pessoas estejam, justamente por estarem também em outras relações, trazem influências diversas. E quando estão em posições diversas na mesma relação, podem ter pontos de vista diversos sobre o mesmo objetivo ou sobre a própria relação (um casal; dois times jogando o mesmo jogo; alguém que empresta ao outro alguma coisa e pretende reaver o que emprestou etc.).

 


Escrito por Guilherme às 13h56
[] [envie esta mensagem] []



Sobre tomada de decisões (II de III)

Os exemplos mais banais mostram que a diferença está presente nas pequenas coisas, não só nas grandes. Se temos problemas em aceitar as grandes diferenças – ideológicas, religiosas etc. – e se traçamos limites os quais não pretendemos ultrapassar, ainda assim precisamos lidar com as diferenças que surgem no cotidiano e que, muitas vezes, são constitutivas da própria relação.

Duas pessoas pretendem colocar um quadro numa parede, já tendo acordado qual será o quadro e a parede. Uma delas acredita que usando um martelo e um prego seja o melhor jeito, outra acredita que o melhor seja uma furadeira, uma bucha e um parafuso. Como decidir? Como as duas pessoas podem chegar juntas a um consenso? Se o prego e o parafuso parecem banais demais, que tal trabalhos coletivos maiores, como a construção de um forno, a manutenção de uma horta, a pintura de uma parede, a escrita de um texto, ou a melhor estratégia de ação, inação, trabalho, lazer, prazer, vadiação? Vamos jogar capoeira, sinuca ou futebol? Quais são as regras do jogo? De quem foi o ponto, do meu time ou do seu? Devo ceder ao movimento do outro para continuar o jogo, ou travar o movimento e o jogo?

Parece-me que o princípio básico para qualquer uma dessas situações pode ser resumido da seguinte forma:

Duas pessoas têm opiniões diversas sobre a mesma decisão a ser tomada. Essas duas pessoas podem discordar até o fim, jamais ceder, de modo que a decisão fica comprometida e, possivelmente, a própria relação. Entretanto, uma das pessoas pode ceder, movida pelo convencimento da outra pessoa, concordando que aquela é a melhor solução; ou pelo desejo de fazer algo em conjunto com a outra pessoa, mesmo discordando de que aquela seja a melhor solução, para evitar uma crise na relação; ou pode simplesmente superar a distinção entre “melhor” e “pior” solução, em nome da aposta na aventura. Uma terceira opção seria o caso em que as duas pessoas cedessem. E aí, o que acontece? O que parece um contra-senso – as duas cederem – acaba se tornando um consenso.

Porque quando as duas pessoas estão dispostas a ceder, o que acontece é o próprio movimento da relação, o diálogo, a constituição de uma solução consensual, talvez tradicional, talvez inovadora, conforme o velho adágio de que “duas cabeças pensam melhor do que uma”, ou dois corpos se abraçam melhor do que um. Nessa disposição, as duas podem até chegar à conclusão de que uma das duas propostas iniciais seja a melhor, a despeito de quem tenha sido o dono da idéia. Nesse sentido, dar uma idéia é recusar a propriedade da mesma, recusar sua integridade, sua imutabilidade.

Mesmo quando só uma pessoa cede, pode haver reciprocidade e mutabilidade na relação. Entretanto, se apenas uma pessoa cede, o tempo inteiro, enquanto a outra pessoa é sempre a dona da idéia, da verdade e da razão, o que acontece é uma relação de mão única, sem reciprocidade. É uma relação de propriedade, de dominação. Se nem sempre as pessoas estão dispostas a ceder, entretanto é preciso que estejam dispostas a ceder muitas vezes, constituindo uma reciprocidade de decisões, uma alternância. A não ser que prefiram ou uma relação autoritária, ou abandonar a relação sempre que houver discordância.

 


Escrito por Guilherme às 13h46
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
       
   



BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Política, Saúde e beleza







Histórico

OUTROS SITES
    Ativismo ABC
  Enclave - Minha já acabada banda do coração e das tripas
  La Revue du M.A.U.S.S - Revista do Movimento Anti-Utilitarista
  Erva Daninha
  Ativismo Caipira
  Um Militante Imaginário
  A Vida É Melodia
  Freecycle São Paulo - rede de intercâmbio gratuito de coisas!
  AbaEté - Rede de antropologia de rede
  Existe Política Além do Voto
  Metacafé
  Emma Goldman Finishing School - Como vive o coletivo que inventou o Riseup
  Cinismo Cotidiano
  A poesia criou o mundo
  Correnteza
  Uma Nova Cultura
  Cavalo do Cão - minha nova banda animal!
  Paraíso Concreto
  Franco (A)tirador
  Confraria de Pensamentos
  A Sociedade Primitiva
  Editora Deriva
  Amanamanha - Construindo se aprende!
  Velho Punk Inglês Nunca Morre
  Desatinos Antropológicos


VOTAÇÃO
    Dê uma nota para meu blog