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| 25/01/2012 |
Violência Policial em SP: tradição ou novidade?
Eu estava conversando com uma amiga que está longe da internet, para saber se ela compartilhava dessa percepção que a gente que passa o dia online tem da escalada de violência em São Paulo. Porque hoje é certo que a internet e as câmeras fotográficas eletrônicas e filmadoras de bolso ajudam muito a disseminar uma informação que antes estava restrita aos silêncios locais, às histórias de bar, aos jornais panfletários (nos sensacionalistas o que sempre apareceu foi o inverso), às vidas dos pobres em dinheiro e dos marginais do mercado. Ela acha que, embora a violência sempre esteve aí, citando até um documentário do Zumbi Somos Nós e uma pesquisa a respeito da história da polícia - sempre a serviço da propriedade (como sempre disseram os socialistas) - e que "direitos humanos" era o nome do cacetete usado na FEBEM, está havendo um aumento, sim. Esse aumento, conforme dialogávamos, tem a ver com a ascensão social e a entrada no mercado de certas camadas da população que foram marginalizadas ao longo dos séculos e que agora, por bem ou por mal, são tragadas pelo sistema com mais intensidade. Desenvolvimentismo, enfim. Pois esses novos "incluídos" demandam direitos que antes não tinham. Com isso, o mecanismo de distribuição da violência estatal explode, chegando aos pólos mais extremos. Cracolândia e Universidade: essas são as novidades do ano. Desalojo de moradores de ocupações, infelizmente, não me parece novo. Não menos pior, mas é algo do que temos ouvido falar com mais freqüência. Saber da polícia ocupando com violência um espaço universitário é coisa que não acontece desde a ditadura. E o tratamento dado aos craqueiros, se em alguma medida remete ao que já foi feito contra os camelôs no centro de SP, parece mais degradante: é como espancar doentes. 
Agora, se a polícia "sempre foi assim", como dizem os conformados, porque outras coisas mudaram? Por que, por exemplo, a educação pública no Estado de São Paulo, que abrigou e formou esta classe média que hoje é maior de sessenta anos de idade, está tão achincalhada? Por que temos tantos pedágios em São Paulo, se antigamente podíamos viajar livremente por este estadão, inclusive de trem? Por que não se vê mais carros velhos nas principais avenidas do Estado, e o paulista - se não o brasileiro - vive cada vez mais em função de trocar e financiar o carro do ano que vem pelo carro do ano passado? Muitas coisas mudaram, a vida "melhorou" para muita gente, muitas coisas pioraram, outras continuaram iguais? Enfim, por que umas coisas mudam, outras não? Até hoje a sociedade burguesa paulista tem sido preparada para incluir certos tipos de gentes em detrimento de outros. Há poucos séculos atrás, a opção foi feita pelos imigrantes brancos em detrimento dos ex-escravos negros. Com a chegada de imigrantes mais queimados de sol, ficou mais difícil diferenciar pelo contraste. Uma mudança começou e vemos hoje o seu resultado. Enquanto esses imigrantes da seca chegam aos pouquinhos à gerência, à presidência e aos antigos clubes operários da barulhenta classe média do subúrbio, parece haver um vazamento nas tubulações de transmissão de riqueza e não se sabe escolher entre fechar o registro ou encher a torneira de pancada. E se nada disso der certo, ainda haverá um jeitinho? Como vamos acolher o futuro dessas relações? Num futuro desenvolvimentista e kafkiano? Ou no futuro do pretérito? Com um abraço? Ou com uma porrada? Será que vamos ter de imitar os estudantes chilenos que abraçaram a tropa de choque? Como irá nos retribuir: sorrisos ou borrachadas? Pelo amor, governador... Triste aniversário para a capital: esta é a cereja de um bolo em forma de pirâmide que tem sido construído há mais de quatrocentões anos.
Escrito por Guilherme às 14h02
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| 03/01/2011 |
Sobre tomada de decisões (I de III)
O Ativismo ABC, coletivo do qual participo, está num esforço de teorização sobre suas práticas e pretendo contribuir com isso analisando um ponto que considero fundamental para uma vida mais libertária e solidária: a tomada de decisões. Nem sempre duas ou mais pessoas aliadas precisam tomar uma decisão que afete sua vida comum. Podem, mesmo sendo aliadas, viver diversos aspectos de sua vida separadamente, ou com pessoas diferentes. A primeira liberdade é, portanto, não ser obrigado a estar vinculado somente àquela relação ou coletivo. Outra liberdade possível, dentro de uma experiência coletiva, é poder levar sua própria vida, seus fazeres e não-fazeres, sem precisar da concordância de todos. Para isso é preciso uma outra concordância: a de que cada um, ou dois, ou mais, possam fazer ou deixar de fazer algo por conta própria para o coletivo. Mas o problema aparece quando essa decisão desagrada alguém do coletivo... Neste caso, bem como nos casos em que um coletivo libertário e solidário decide fazer algo junto, é preciso que a decisão seja tomada de forma comum do modo o mais livre e solidário possível. Assim, em prol da solidariedade, a liberdade de cada um deve estar subordinada à liberdade dos outros. Portanto, deve estar obrigada a ela. Caso contrário, basta simplesmente que haja uma cisão, uma separação, o final da relação. Mas se o desejo é o de manter a relação, então é preciso que haja alguma forma de abertura por parte dos envolvidos, de aceitação da vontade do outro, de transformação da vontade. Quando duas ou mais pessoas desejam fazer algo juntas ou que afete umas às outras, já de partida têm algo em comum. É esse algo em comum, a comunhão de um espaço ou meio, o desejo pela mesma coisa, um objetivo a ser alcançado, uma tarefa a ser feita, a realização de um sonho, que de algum modo às mantêm juntas. Há também o desejo pelo outro: duas ou mais pessoas estão ou podem estar juntas porque querem uma à outra, porque encontram na outra algo que não encontram em si mesmas, porque buscam na própria relação um fundamento de vida. Na relação, por princípio ou por acaso, a diferença cedo ou tarde se manifesta. Por mais de acordo que duas ou mais pessoas estejam, justamente por estarem também em outras relações, trazem influências diversas. E quando estão em posições diversas na mesma relação, podem ter pontos de vista diversos sobre o mesmo objetivo ou sobre a própria relação (um casal; dois times jogando o mesmo jogo; alguém que empresta ao outro alguma coisa e pretende reaver o que emprestou etc.).
Escrito por Guilherme às 13h56
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Sobre tomada de decisões (II de III)
Os exemplos mais banais mostram que a diferença está presente nas pequenas coisas, não só nas grandes. Se temos problemas em aceitar as grandes diferenças – ideológicas, religiosas etc. – e se traçamos limites os quais não pretendemos ultrapassar, ainda assim precisamos lidar com as diferenças que surgem no cotidiano e que, muitas vezes, são constitutivas da própria relação. Duas pessoas pretendem colocar um quadro numa parede, já tendo acordado qual será o quadro e a parede. Uma delas acredita que usando um martelo e um prego seja o melhor jeito, outra acredita que o melhor seja uma furadeira, uma bucha e um parafuso. Como decidir? Como as duas pessoas podem chegar juntas a um consenso? Se o prego e o parafuso parecem banais demais, que tal trabalhos coletivos maiores, como a construção de um forno, a manutenção de uma horta, a pintura de uma parede, a escrita de um texto, ou a melhor estratégia de ação, inação, trabalho, lazer, prazer, vadiação? Vamos jogar capoeira, sinuca ou futebol? Quais são as regras do jogo? De quem foi o ponto, do meu time ou do seu? Devo ceder ao movimento do outro para continuar o jogo, ou travar o movimento e o jogo? Parece-me que o princípio básico para qualquer uma dessas situações pode ser resumido da seguinte forma: Duas pessoas têm opiniões diversas sobre a mesma decisão a ser tomada. Essas duas pessoas podem discordar até o fim, jamais ceder, de modo que a decisão fica comprometida e, possivelmente, a própria relação. Entretanto, uma das pessoas pode ceder, movida pelo convencimento da outra pessoa, concordando que aquela é a melhor solução; ou pelo desejo de fazer algo em conjunto com a outra pessoa, mesmo discordando de que aquela seja a melhor solução, para evitar uma crise na relação; ou pode simplesmente superar a distinção entre “melhor” e “pior” solução, em nome da aposta na aventura. Uma terceira opção seria o caso em que as duas pessoas cedessem. E aí, o que acontece? O que parece um contra-senso – as duas cederem – acaba se tornando um consenso. Porque quando as duas pessoas estão dispostas a ceder, o que acontece é o próprio movimento da relação, o diálogo, a constituição de uma solução consensual, talvez tradicional, talvez inovadora, conforme o velho adágio de que “duas cabeças pensam melhor do que uma”, ou dois corpos se abraçam melhor do que um. Nessa disposição, as duas podem até chegar à conclusão de que uma das duas propostas iniciais seja a melhor, a despeito de quem tenha sido o dono da idéia. Nesse sentido, dar uma idéia é recusar a propriedade da mesma, recusar sua integridade, sua imutabilidade. Mesmo quando só uma pessoa cede, pode haver reciprocidade e mutabilidade na relação. Entretanto, se apenas uma pessoa cede, o tempo inteiro, enquanto a outra pessoa é sempre a dona da idéia, da verdade e da razão, o que acontece é uma relação de mão única, sem reciprocidade. É uma relação de propriedade, de dominação. Se nem sempre as pessoas estão dispostas a ceder, entretanto é preciso que estejam dispostas a ceder muitas vezes, constituindo uma reciprocidade de decisões, uma alternância. A não ser que prefiram ou uma relação autoritária, ou abandonar a relação sempre que houver discordância.
Escrito por Guilherme às 13h46
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Sobre tomada de decisões (III de III)
Nem toda hierarquia constitui-se uma relação autoritária. Entre uma e outra pessoa, é possível que uma delas tenha mais conhecimento e experiência no assunto. Por outro lado, a menos experiente pode estar disposta a fazer experimentos. E esses experimentos podem trazer inovações importantes à tradição. Assim, é preciso haver uma reciprocidade entre o experiente e o experimental, o tradicional e o inovador, o certo e o ousado, o repetitivo e o criativo. Algumas tradições mais hierárquicas não permitem que inovações advenham dos níveis mais baixos da hierarquia, outras permitem, há uma variação muito mais de grau que de estado. Muitas vezes os mais experientes, devido à própria sabedoria, sabem aproveitar as inovações trazidas pelos mais novos. Inclusive porque quem é inexperiente em alguma coisa pode ser experiente em outra, trazendo para aquela relação experiências de outras relações. E essa mistura de experiências pode surpreender. Quanto mais experimental uma relação, mais aberta à surpresa e ao erro ela está. O erro, enfim, é essencial para o aprendizado. Diversas formas de tomadas de decisão coletiva envolvem uma mistura da sabedoria dos mais velhos com o poder transformador dos mais novos. Aprender é transformar-se. Estar aberto ao outro, saber ceder, é estar aberto ao aprendizado. Não um mero aprendizado de quem sabe menos com quem sabe mais, mas um aprendizado a partir da experiência desta relação. A sabedoria parece-me consistir muito mais em saber aprender, em aprender a aprender, do que em apenas saber. Para terminar, cabe uma autocrítica ao anarquismo. Muitas vezes em movimentos políticos radicais, imbuídas de uma recusa contra as formas de dominação maiores, as pessoas trazem para dentro do movimento o mesmo tipo de atitude que mantêm perante as instituições dominadoras que não aceitam dialogar. Ou seja, a recusa em ceder, que é necessária quando queremos romper com uma relação sem diálogo, mas que é perniciosa quando queremos constituir relações dialógicas. O resultado disso é conhecido na história do socialismo e do anarquismo: o sectarismo, as trocas de acusações, a incapacidade de construir relações alternativas, a incapacidade de se transformar. No afã de serem elas mesmas, as pessoas se esquecem de serem outras, separando-se cada vez mais. No mais, tudo é possível. E se você não concorda com minha análise sobre a tomada de decisões, podemos dialogar mais sobre o assunto...
Escrito por Guilherme às 13h37
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| 31/10/2010 |
A árvore de flores roxas
A hipocrisia é premiada, a franqueza é condenada. Franqueza é expor-se, é fazer a verdade. A árvore de flores roxas derrama suas pétalas na obra inconclusiva da praça aonde os maconheiros faziam sua política cotidiana.
Escrito por Guilherme às 18h03
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| 28/07/2010 |
O metrô como laboratório de políticas corporais (I de II)
Estudo de caso número 1 – O flerte e a guerra dos sexos Estava eu sentado no metrô, como tenho feito sempre – já que o pego num dos pontos finais e normalmente encontro o conforto de viajar bem acomodado quando o trem parte desta estação, e assim permaneço se tiver em mãos um livro para ler ou um caderno para escrever. Uma ou duas estações depois, o vagão começou a ficar cheio e uma moça bonita, magra, alta, com um porte e um traje meio de modelo, meio corporativo, mas desses cargos mais inferiores, deparou-se em minha frente. Era elegante, mas não a custa de muito dinheiro, o que não parecia estar sobrando ali. Notei que usava um sapato de salto alto e, quando terminei de escrever, levantei-me e ofereci-lhe o acento: _ Quer sentar, moça? Você está de salto... Ela rapidamente sorriu e disse-me um “não, obrigada”. Fiquei pensando sobre aquela frase e reparando nela, de rabo de olho, com a curiosidade aguçada de um investigador, porém fazendo de tudo para que não notasse, para que não julgasse ser apenas mais um caso vulgar de flerte. Mas, com isso, estava ao mesmo tempo flertando sub-repticiamente, sem entregar o jogo, porque o flerte é um jogo e a mulher que não corresponde ao flerte é sempre a vencedora. Ao agir de maneira tão disfarçada, eu também evitava o risco da não correspondência, que era iminente – dada a resposta que me dera àquela pergunta – e assim eu também saía ganhando um pouquinho. Fiquei reparando nela porque intentava descrevê-la, já que emitia um ar discretamente sui generis. Sua roupa era toda preta, a calça social, a blusa de malha, as unhas pintadas num tom rosáceo quase semelhante ao natural da maioria das unhas de pessoas brancas, mas brilhante. Usava uma bolsa larga de tecido moderno, preta de bolinhas brancas, pendurada com uma corrente fina e prateada, em uma das mãos um anel com uma pedra grande, branca. E um par de brincos de “pérolas”. O sapato completava o visual quase de boa-moça, já que preto, porém de fabricação delicada, aberto na frente e com um polido e charmoso lacinho. O contraste de todas essas cores com sua cor de pele e cabelos, que não cabe aqui dizer quais são, era sutilmente harmonioso e marcante. Já a atitude corporal, logo em seguida à minha oferta, ainda que sob pesada dose de discrição – já que, se aparentasse demais, também ela estaria entregando o jogo – passou a emitir um ar de afronta, uma pose de punk, de mulher decidida, quase adolescente. Quando uma cadeira vagou bem perto de nós, ela não reagiu, deixando que um outro rapaz grande e forte se sentasse. Encostou-se na parede dos fundos do vagão de braços cruzados, olhar blasé, sempre muito acima de minha cabeça, e um quase-sorriso nos lábios (esses quase-sorrisos sempre dão o que pensar). Depois, segurou-se nos ferros, com uma mão na cintura, nessas poses que fazemos quando estamos indignados ou esperando, como quem não se importa. E, apesar de manter-se sempre o mais afastada possível de mim, continuava ao meu lado, e quase perdeu a porta certa de descer, porque foi a do lado oposto que se abriu para a saída dos passageiros... Essa atitude toda me fez pensar no que “realmente” queria dizer a única frase que me proferiu. “Não sou obrigada a aceitar as convenções machistas dessa sociedade, nem de cair na sua cantada fajuta”, disse a garota? Ou “não vou me sentar, pois, afinal, sou obrigada a provar que sou uma mulher forte e decidida, feminista e livre, e que não preciso de homem nenhum, apesar de ser uma garota delicada e meiga, das unhas cor-de-rosa”? Em meio a essas dúvidas, que talvez sejam as dela também, eu pensava o quão distantes estamos quando assim equiparados, distantes como pessoas, impossibilitados de nos vincular, e mesmo de conhecer o outro e de saber o que mais pensa das relações de gênero, sexo e boas maneiras. Digo “o que mais” porque cada gesto desses, cada cruzar de braços, cada “não”, cada forma de ficar em pé dentro de um transporte público, é a manifestação física do que pensamos. É nosso pensamento em ato, nosso corpo pensando com e sem palavras. O sociólogo alemão Georg Simmel dizia que o flerte era uma forma muito comum de interação nas grandes cidades, inclusive em trasportes públicos como o metrô de Paris. O flerte correspondia a uma relação fugaz, misteriosa, aberta, comum a um ambiente como o espaço público das grandes cidades, no qual nos deparamos com pessoas com as quais podemos não ter nenhum vínculo prévio ou posterior, mas com quem dividimos a mera e fundamental condição de estar juntos. A experiência de Simmel vem da virada dos séculos XIX e XX. Hoje, creio eu, vivemos um momento mais avançado de impersonalização de certas relações no espaço público. O flerte no metrô, hoje em dia, parece-me cada vez mais evitado, negado, talvez até proibido. Com a nova era do “assédio sexual”, até flertar parece ter se tornado uma prática de risco. Na mesma viagem, vários minutos depois, visualizei uma garota de cuja fisionomia lembro-me vagamente, bela mas nem tanto, não uma beleza comum, mas um comum belo. Comecei com ela um jogo de fixações e desvios de olhares. A brincadeira era tentar perceber qualquer vestígio de que ela pudesse estar me olhando. Meus olhos desviavam, às vezes fechavam o foco nela, às vezes circulavam por seu rosto, enquanto seus próprios olhos circulavam pelo ambiente, com um certo brilho, tentando evitar os meus. Ficou longamente parada, em pé (como eu), na mesma posição, com o rosto posicionado de tal forma que eu podia vê-lo diretamente e que talvez ela pudesse me ver pelo canto do olhar, as feições talvez calculadamente serenas, e aquele mesmo quase-sorriso nos lábios (lábios não tão chamativos quanto os da outra moça, entretanto). O vagão não estava tão cheio. Se estivesse incomodada comigo, poderia facilmente se mover ou desviar a posição do rosto para outro lado. Mas não o fazia. Até que cansei, resolvi pedir um tempo, fingi real desatenção e passei a mirar a janela do vagão. Nesse momento ela relaxou-se toda: balançou os braços, mexeu a boca, ajeitou a bolsa, respirou. Pareceu-me ligeiramente embaraçada quando percebeu que eu percebera seus movimentos. Mas em momento algum encarou-me diretamente nos olhos. Dados esses dados da experiência direta e considerados outros fatores de minha vida que não vêm ao caso mencionar, decidi que de agora em diante, por período indeterminado (pode ser um dia, uma semana, um mês, pode ser até o carnaval chegar) levarei a cabo o seguinte experimento na área das políticas sexuais: não mais iniciarei flerte com mulheres, seja na forma de olhares ou palavras e, caso não possa resistir a uma olhadela, serei discreto a ponto de não entrar no jogo. O objetivo desse experimento é testar se tal prática (ou contra-prática) pode vir a gerar algum tipo de mudança de comportamento das sujeitas à pesquisa, descobrir também qual será minha reação a esta nova situação (se paro de uma vez de me preocupar com a mulherada), ou mesmo descobrir se haverá alguma dose de melhoramento na minha qualidade de vida quando alhear-me às angústias e diversões desse jogo tão mal jogado ultimamente pela raça urbana. Tornar-me-ei uma pessoa mais focada, com menos desvios de olhar? Ou devirei cada vez mais um “in”divíduo insensível, impessoal, com a alma de burguês e o corpo de proletário, incapaz de entregar-me de corpo e alma às situações? (Se me vierem com a ladainha femista de que me tornarei um cara mais romântico e sensível, eu levantarei minha bandeira masculista em debate tão intenso e acalorado que, no geral, será vencido por mim, infelizmente, por WO. O que também será minha maior derrota.) Dessa experimentação não pretendo tomar notas. E, dependendo de quais forem os resultados, eles jamais serão divulgados.
Escrito por Guilherme às 15h31
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O metrô como laboratório de políticas corporais (II de II)
Estudo de caso número dois – Brasileiro gosta mesmo de fila? Quando em fim já saída da estação do metrô para pegar a chamada “Ponte O.R.C.A” – um trajeto de micro-ônibus entre duas estações de metrô e trem não conectadas por vias férreas, coisa de brasileiro, diga-se, afinal desde a virada da Era do Café para a Era da Borracha temos tido preferência por automotores correndo no asfalto, ao invés de trens –, fui em direção aos micro-ônibus, sendo todavia alertado pelos funcionários responsáveis de que eu deveria pegar a fila do outro lado. A fila encaracolava-se em zigue-zague por todo o saguão da estação, saía pela porta de trás, dava a volta pela calçada ao redor do prédio e voltava assim para a porta da frente, onde eu tentara inocentemente embarcar no businho. Entrei normalmente na fila, como faço de costume, e comecei a reparar nas caras das pessoas. No meio dessa reparação, veio-me um repente – ou uma “epifania”, como dizem os moderninhos, por influência das séries de TV norte-americanas – e me perguntei: afinal de contas, como essas pessoas todas são obedientes! Existe ali uma multidão e cada um entra na fila tranqüilamente, sem uma expressão de revolta, sem uma reclamação, sem um A. Rindo-me e olhando ao redor, cogitei a proposta de um experimento, que aqui divido com o leitor, para que possa levar a cabo por sua própria conta, tomando parte voluntária nesse laboratório de políticas corporais coletivas. Um grupo de pessoas, previamente combinado, adentraria à fila da O.R.C.A., cada pessoa bastante afastada uma da outra, e cada um começaria fazer comentários em voz alta de desagravo em relação àquela situação. Uma começaria, então, a responder os desagravos da outra, criando quase uma conversa coletiva. Como reagiriam as outras pessoas? Elas também levantariam sua voz? Elas movimentariam seus corpos de alguma maneira imprevisível à rotina de uma fila? Caso o experimento tomasse proporções maiores, seria aconselhado que fosse revelado aos demais participantes involuntários, num momento oportuno. Afinal, todo “contrato social” precisa ser explicitado quando a intenção é experimentar com ele. Já em casa, conversando com minha mulher sobre meus planos de pesquisa, sobre o flerte e sobre a fila, o relato que me deu de seu próprio comportamento no jogo do flerte confirmou ainda mais minhas suspeitas quanto à estratégia de jogo feminina. Mas, quanto à fila, ela ponderou que nos pontos de ônibus e nas entradas de vagão a mesma costuma ser pouco respeitada, quase sempre furada e que, no momento de entrar nos transportes públicos, as pessoas se aglomeram de forma desordenada e pouco polida. E que aquele comportamento ordeiro que eu presenciara era típico não de qualquer brasileiro em qualquer fila, mas sim da fila da ponte O.R.C.A. Mas por quê, pensamos? Seria porque na fila da ponte O.R.C.A existe um elemento a mais de controle: aquele papelzinho que nos entregam na catraca do metrô e que devemos mostrar para o fiscal na porta do micro-ônibus? Portanto, brasileiro só é bem comportado em fila quando tem um papel na mão, e a materialidade do papelucho tem um poder soberano tão grande que jamais é questionada? Somos mesmo cidadãos de papel, como diria o outro? É o pedaço de papel a verdadeira dádiva estatal que nos faz estar juntos? Fica aí a pergunta. Quem quiser, pode tentar respondê-la na prática, com o papel, o corpo, a voz e a alma.
Escrito por Guilherme às 15h30
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| 26/03/2010 |
Sobre a teoria de Alice *
Numa tarde de algum tempo atrás, na porta de um bar autogerido no bairro Casa Branca, em Santo André (SP), estávamos sentados numa das mesas uma amiga, sua filhinha e eu, esperando nosso lanchinho. Quando tentei adiantar o pagamento, tirando o dinheiro do bolso e chamando o de trás do balcão, assim sendo imitado por minha amiga, sua menina Alice nos disse: _ Por que vocês vão pagar? Vocês não são amigos do pessoal do bar? Surpresos (em parte...), tiramos rapidamente uma resposta do outro bolso: _ Justamente porque eles são nossos amigos é que vamos pagar, eles precisam do dinheiro. Alice, sonhando com um mundo das maravilhas, retrucou: _ Mas se eles são seus amigos, quando precisarem de dinheiro é só pedirem pra vocês...
Situação bastante inconveniente para alguns anarquistas chegados à autogestão, diriam outros. Eu esperava esse tipo de questionamento de adultos, mas “até” uma criança pode ver o quão contraditória é essa situação! Auto-intitulados anarquistas, anti-capitalistas pregadores da ajuda mútua, gerem e consomem em bares usando o dinheiro e a mercadoria. Que vergonha, não?! O problema é que esses caras são sem-vergonha. E em defesa deles eu vou concordar em parte com a Alice, e discordar em parte daqueles que defendem-se de algumas ações libertadoras não isolacionistas pressupondo que qualquer relação com a mercadoria é uma submissão ao Capital.
O pressuposto de Alice, mesmo para uma relação envolvendo o dinheiro, é que a amizade entre as pessoas supõe que elas devam fazer coisas de graça umas para as outras. Não é simplesmente fazer de graça e pronto, mas sim fazer de graça sabendo que, de um amigo, pode-se esperar ajuda gratuita futuramente. Mesmo que essa ajuda envolva dinheiro. É querer demais? É ser muito infantil? Talvez não, porque mesmo os adultos tem maneiras mais sutis de resolver essa questão através do próprio dinheiro.
A distinção entre dádiva e mercadoria apareceu na Antropologia às vezes como um grande divisor, separando do lado da dádiva modos de vida ditos não-ocidentais, tradicionais, alternativos, talvez até anti-estatais, e situando no lado da mercadoria o tal Ocidente, os modernos, o sistema dominante, o Capital. Talvez o trabalho de Chris Gregory, Gifts and Commodities, sobre a Melanésia, tenha sido responsabilizado por propagar esse divisor, apesar de que o objetivo do livro fosse mostrar como os melanésios lidam tanto com a dádiva (“gift”) quanto com a mercadoria (“commodity”) e, assim, mal se encaixam nesse divisor de mundos. Entretanto, o próprio Marcel Mauss, um dos fundadores de uma tradição de estudos sobre a dádiva, já ressaltava no começo do século passado a presença de relações de prestação total, gratuidade, vínculo entre pessoas e coisas, vínculos de pessoas através de dádivas simbólicas (o pleonasmo é meu) e a famosa tríade “dar, receber e retribuir” em civilizações mercantis como a semítica, a grega e a romana. Mesmo apesar delas já distinguirem em seus direitos as relações não gratuitas de um lado e as gratuitas de outro, coisas de um lado e pessoas de outro (e no meio disso tudo, o gado, os escravos e até a própria família...). Pois os próprios romanos reconheciam um valor não mercantil que vinculava tanto pelas coisas quanto pelas pessoas, o nexum. Futuramente, diversos antropólogos elaborariam essa idéia chamando-a de “valor de vínculo” (veja, por exemplo, Genauto de França Filho), um valor que não é nem o de uso (ou utilidade), nem o de troca (que se apresenta na forma do preço), mas o valor da própria relação, sua importância, sua duração, sua força e valentia. No mundo moderno a amizade é o protótipo dessa relação: amigos são amigos por e para poderem contar um com o outro, por gostarem um do outro de graça (ou quase). Mauss já reconhecia que subjacente à moeda estava a dádiva, mostrando suas conexões históricas. Pode-se dizer também que o dinheiro envolve uma relação de confiança, seja reduzida, seja encenada (como em qualquer ritual), entre os contratantes. Existe um momento de informalidade em qualquer troca mercantil, que é o da falta de simultaneidade entre os atos de entregar a mercadoria e pegar o dinheiro. Alguém sempre é o primeiro, apesar do pensamento burguês dizer o contrário, e esse instante é muito potente, cheio de risco, entrega, desprendimento, sincero ou fingido, mas de boa-fé. Some-se a isso a antropologia da vida nas cidades (procure por James Carrier, por exemplo) mostrando que desde as relações entre firmas e fornecedores àquela entre donos de mercadinho e seus clientes que pagam fiado existem confiança e vínculos duráveis, que mantém os dois lados como parceiros de negócios permanentes, com vantagens mútuas.
O mesmo ocorre na relação entre os donos cooperários de um bar como o dos amigos da mãe de Alice e seus fregueses, por exemplo. Ao freqüentar o mesmo local, ao trocar dinheiro por pequenas mercadorias como lanches, açaí, sucos e até pinga, esses fregueses põem para girar outros circuitos de trocas externos ao dinheiro, mas que são parte necessária dessa relação (ou de uma boa relação de balcão). Trocam conversas, informações e até favores. Apresentam um para o outro algo de sua pessoa, misturam-se, podem tornar-se amigos ou, vice-versa, amigos podem tornar-se fregueses. Pode até haver interesse, nisso: interesse em ajudar a manterem uma iniciativa de gestão cooperativa (como a do exemplo), idéia na qual o amigo freguês também acredita.
Assim, existe mesmo no âmago do funcionamento do capitalismo aquilo que deveria ser o seu contrário: relações pessoais de vínculo, solidariedade e ajuda mútua. Porque mesmo uma economia selvagem como essa não consegue encontrar outro suporte senão o das relações entre as pessoas. Toda relação, por mais fugaz e coisificada que seja, tem algo de pessoal e permanente. Isso não deve ser considerado, todavia, um convite à resignação, e sim à oportunidade. “Fazer alguma coisa” é possível, porque mesmo em meio à mercadoria, aproveitando-nos de seu substrato dadivoso, encontramos brechas para outras fruições e outras relações. (*Este texto é parte de uma reflexão maior sobre "economia política de bar", a qual será paulatinamente apresentada)
Escrito por Guilherme L J Falleiros às 10h55
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| 28/02/2010 |
Como você trata uma mulher negra?

Escrito por Guilherme L J Falleiros às 20h31
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| 30/10/2009 |
Putas de minissaia, fascismo e universidade brasileira (parte I de III)
Existe um autor de obras antropológicas muito pouco conhecido nas ciências sociais brasileiras, talvez não tanto nas Letras mas com certeza na Antropologia, porém afamado internacionalmente, principalmente nos Estados Unidos e em países de língua espanhola. Seu nome é René Girard.
Sua tese – e todos os fenômenos sociais, dos mitos aos ritos, passando pela psiquê humana, pela literatura etc., o que dá a ela um pequeno toque megalomaníaco – se fundamenta no chamado “desejo mimético”. Este é o impulso que faz duas pessoas competirem pelo mesmo objeto. Existiria na origem de tudo um desejo comum por um objeto escasso, e isso seria anterior às diferenças geradas pelas rupturas advindas da competição. O cúmulo desse impulso chegaria quando as pessoas, uma imitando a outra, formariam um grande bloco violento de todos contra um, encontrando um bode expiatório para sua insatisfação. Este seria a vítima sacrificial, que depois de morta seria transformada no deus, no totem, no tabu, algo assim. A origem da "sociedade", em suma, seria o linchamento.
A tese é sedutora e explica diversos fenômenos modernos. Explica muito bem um fenômeno ocorrido ontem numa universidade privada da Grande São Paulo (mais precisamente do meu amado ABC paulista). Assim como algumas igrejas consideradas shoppings centers da fé, onde você entra e paga por umas bênçãos e alguns exorcismos, num frenesi coletivo de multidão, existem hoje universidades privadas onde se consome educação como se comprasse fast-food (ou enquanto se compra fast-food, já que essas universidades têm praça de alimentação). Esse tipo de empreendimento, em defesa do desenvolvimento da nação brasileira, beneficia-se da sempre crescente competição por cargos no mercado de trabalho e no infindável exército de reserva produzido pelo capitalismo. O capitalismo é uma máquina de desperdiçar pessoas, ela precisa ter gente sobrando para funcionar. E para essas pessoas que sobram, ela ainda oferece cursos de “educação superior” e ganha com isso. Esse é o chamado avanço moderno: no passado o exército de reserva recebia a esmola da educação básica, hoje é o consumo da educação superior.
O que aconteceu ontem, então, num lugar como esse, tão seguro quanto um shopping center? Em suma, uma garota loira, de corpo escultural, resolveu ir à aula usando um vestido vermelho muito curto e apertadinho no corpo. Roupa de puta, diria a maioria. E fama de puta é o que não falta, pois dizem que as prostitutas são uma clientela importante desse tipo de empresa educativa. Isso certamente deixou os colegas da gostosa furiosos: como alguém ousava confirmar o estereótipo? Confirmar o que já desconfiavam: que aquela universidade tinha como público pessoas à margem do mercado, pessoas que precisavam vender seu próprio sexo, sua intimidade, para viver? Confirmar as desconfianças de que sua própria universidade, seu próprio objeto de consumo, confundia-se com uma puta? Uma universidade prostituta? Não, isso não! A multidão de milhares estudantes, furiosa, perseguiu a menina por toda a universidade e só não conseguiu o que queria porque alguém chamou a polícia. Se Adorno estivesse vivo e dando aula numa universidade privada brasileira virada de pernas para o ar por estudantes revoltados, pelo menos dessa vez teria razão em chamar a polícia.
Na luta coletiva por um objeto escasso: um emprego, a prostituta é uma vítima muito propícia para a violência mimética insatisfeita. Ela “representa” – com letra maiúscula, já que segundo Girard a vítima sacrificial seria a origem de toda representação – a mercantilização da vida nua. Maldição de nudez à qual seus colegas não querem se ver expostos. Pois sabem que, vestidos ou despidos, são mercantis como ela. Daí seu linchamento moral em praça (de alimentação) pública (de uma instituição privada). 
Escrito por Guilherme L J Falleiros às 16h36
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